sábado, 16 de janeiro de 2010

IRON MAIDEN - A MATTER OF LIFE AND DEATH (2006)



(Postado originalmente no endereço anterior da Cripta do Caveira, em 30 de agosto de 2006)


"Esse é o melhor álbum do Iron Maiden desde Seventh Son of a Seventh Son".

Você vai ver a frase acima em 90% dos reviews que ler sobre o novo disco do Maiden, seja um review de revista especializada ou de comunidade no Orkut. Não veja nisso nenhuma surpresa. É simplesmente a coisa mais previsível do mundo para se dizer sobre o disco - aliás é o mesmíssimo "comentário geral" que se fez sobre o álbum anterior do Maiden, DANCE OF DEATH (2003). É natural que os fãs pensem assim, afinal o álbum SEVENTH SON OF A SEVENTH SON é o último da chamada "fase clássica" do Iron, marcada pela definição do estilo "metal melódico" que se tornou marca registrada da banda e que exerceu enorme influência no heavy metal mundial.

Dito isso, é uma profunda perda de tempo identificar se o álbum é "melhor" ou "pior" do que outros lançados há quase vinte anos atrás! Vivemos num outro momento histórico, a cabeça dos músicos é outra, o estilo de compor mudou e a proposta da banda também não é mais necessariamente a mesma. Só o gosto pessoal de cada fã poderá dar a resposta para esta pergunta. Portanto, deixemos essas "frases feitas" de lado e tentemos nos ater aos fatos.

Aí vai um: primeiro, esse é o álbum mais inovador e diferenciado do Iron Maiden desde THE X-FACTOR (1995). O problema é justamente que The X-Factor é um disco detestado por boa parte dos fãs da banda, principalmente por não contar com Bruce Dickinson nos vocais. Apesar disso, a verdade é que THE X-FACTOR foi o álbum que redefiniu o estilo de compor do Sr. Steve Harris, baixista, líder e compositor-por-excelência da banda. O hard-rock de composições curtas e cheio de riffs, que dava o tom nos dois álbuns anteriores (NO PRAYER FOR THE DYING e FEAR OF THE DARK) cedeu lugar à faixas longas e "darks", com letras contendo uma visão crítica e questionadora sobre o lado negro do mundo atual (como as guerras, a violência e as dificuldades de se levar a vida adiante).

Segundo fato: esse é o álbum mais AUDACIOSO do Iron Maiden desde que Bruce voltou ao grupo em 1999. A banda, em certas horas, chega a um passo do metal progressivo. Das dez faixas do disco, só três tem menos de seis minutos de duração. É um álbum de músicas longas e intrincadas, feito para mandar à merda qualquer conceito de música pesada que esteja na moda ou que se mostre acessível para os padrões das rádios e da MTV. O que nos leva ao terceiro FATO: esse álbum não é NADA comercial e evidentemente não terá o potencial de vendas de um FEAR OF THE DARK (Nota do Caveira em 16 de janeiro de 2010: o tempo mostrou que, apesar do som pouco comercial, a qualidade do álbum falou mais alto e o disco se tornou um grande sucesso de vendas e elevou o prestígio do Maiden para um patamar próximo ao dos áureos anos 80).

Quarto fato: esse é o álbum mais pesado, bem produzido, elaborado e bem acabado do Maiden desde à volta de Bruce à banda. Tudo que já surgia em BRAVE NEW WORLD (2000) e DANCE OF DEATH agora está melhor do que nunca. Salta aos olhos que o Iron adotou uma postura de liberdade criativa ainda mais absoluta do que a de praxe, e os resultados foram excelentes. Da mesma forma, nesse álbum você ouvirá alguns dos momentos mais PESADOS que o Maiden já gravou em toda a sua longa carreira.

Tudo isso, enfim, nos conduz para uma conclusão final. Sim: parece correto dizer que este é o MELHOR dos álbuns do Maiden ... desde Seventh Son? Não. Mas desde que a formação clássica se reuniu novamente em 1999? Sim, disso creio que poucos haverão de discordar.

Antes de mais nada, devo dizer que é MUITO BOM ver o Iron - talvez mais do que nunca - mandando para a PUTA QUE O PARIU as convenções do "rock pesado comercial", não tendo pudor em lançar um álbum cheio de músicas de quase DEZ minutos cada, e que simplesmente não soam nem um pouco cansativas ou repetitivas. Ao todo, o disco traz nada menos do que 72 minutos de música, sem dúvida um dos mais longos álbuns de heavy metal da história a ser apresentado no formato de um único CD.




E não é só no aspecto instrumental que a banda mostra serviço. Célebre por suas letras "épicas", baseadas em obras de ficção, cinema, literatura e passagens históricas, o Maiden chega ao seu décimo-quarto disco de estúdio apresentando um álbum quase que inteiramente constituído de letras mais sérias e contextualizadas com o mundo atual, que questionam a violência, as guerras, a intolerância política e religiosa e lamenta pelas vítimas desses males. É muito raro, hoje em dia, ouvir uma banda que não se situe nos seguintes extremos: alienação total dos problemas do mundo ou discurso panfletário  totalmente situado dentro do espectro político. O Maiden, contrariando a regra, adota um lirismo crítico sem ser político, movendo o foco de seus questionamentos inteiramente para o aspecto do sofrimento humano. E faz isso com rara competência.

A MATTER OF LIFE AND DEATH prova, aos fãs do Iron Maiden, aquilo que eles mais estavam ansiosos para constatar: que o Iron continua inovador, criativo e autêntico, não tendo se tornando uma "banda dinossauro" que tenta imitar sucessos do passado apenas para se manter na mídia e fazer shows repletos de velharias pra ganhar dinheiro. Pode-se amar ou odiar o Iron Maiden atual, mas a verdade nua e crua é que a banda está extremamente ativa e criativa, fazendo questão de "mostrar serviço" álbum após álbum, sem ficar reciclando as mesmas músicas, apostando em composições cada vez mais pesadas, longas e complexas. Arte, meus amigos, é precisamente isso.

Up the Irons!

2 comentários:

JonasRS disse...

Gostei bastante desse album. Achei muito melhor que o chato Dance of Death.

Henrique disse...

Concordo contigo, Jonas. Não chego a achar Dance of Death "chato", mas A Matter of Life and Death é MUITO superior, com certeza. E realmente Dance of Death me parece o mais fraco dos álbuns do Maiden lançados desde a volta de Bruce Dickinson aos vocais em 1999.