segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Caveira resenha: A HORA DO PESADELO 3 (A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors), de 1987



"A Hora do Pesadelo 4" acabou de ser disponibilizado no Netflix brasileiro. Usei este "lançamento" como desculpa para rever "A Hora do Pesadelo 3" antes de assistir novamente o quarto filme, já que estes são (pelo menos por enquanto) os únicos filmes da cinessérie disponíveis no catálogo nacional do Netflix.

Naturalmente, foi um prazer. Para mim, "Dream Warriors" é o melhor filme da franquia depois do clássico original de 1984 dirigido por Wes Craven. Depois da tremenda escorregada que foi o segundo filme da série (falaremos dele numa outra ocasião), este terceiro filme recoloca tudo nos trilhos. É uma ótima sequência do original (possibilitando ao espectador colocar completamente de lado a fraquíssima segunda película) e também um excelente filme de terror individualmente considerado, que se sustenta muito bem mesmo para quem não viu o original (ou não lembra dele).


Na trama, que mais uma vez se passa na cidade de Springwood, a adolescente Kristen Parker (vivida pela atriz Patricia Arquette) começa a ter pesadelos com o terrível Freddy Krueger. Os ataques do serial killer sobrenatural levam a mãe de Kristen a pensar que a filha tentou se suicidar, o que leva a moça a ser internada num hospital. 

Lá, Kristen conhece um grupo de outros adolescentes internados pelos mesmos motivos, já que a cidade lida com um aparente "surto" de suicídios praticados por jovens. No hospital, Kristen conhece também o médico Neil Gordon e uma jovem terapeuta novata, Nancy Thompson. Para quem não lembra, Nancy era a protagonista do filme original de 1984. A atriz Heather Langenkamp novamente vive a personagem. 



"A Hora do Pesadelo 3" é uma sucessão de acertos do começo ao fim. A atmosfera é otima, a ideia de trazer Nancy de volta é muito acertada (o veterano John Saxon, que intepreta o pai de Nancy, também reaparece aqui) e o filme amplia o cânone e a mitologia da série, revelando mais informações sobre as origens do sinistro Freddy Krueger. A fantasmagórica irmã Mary Helena, responsável pelas revelações, é um dos pontos altos do filme. 

O elenco jovem também é muito bom, mas naturalmente o destaque vai para as cenas de mortes levadas a cabo por Krueger - criativas, memoráveis e excelentes do ponto de vista técnico. A cena da morte do sonâmbulo, do Freddy "cobra" e da "televisão assassina" estão entre as melhores e mais icônicas de toda a franquia. A bem da verdade, algumas cenas seriam consideradas chocantes e polêmicas até para os padrões atuais, especialmente a cena em que Krueger ataca com seringas carregadas de drogas na sua luva, ao invés das tradicionais lâminas do personagem.  


Merecidamente, "A Hora do Pesadelo 3" foi um sucesso de crítica e público. Faturou mais de 44 milhões de dólares, para um custo de apenas 5 milhões. 

Como é natural para o gênero horror, na época em que o filme foi lançado muita gente torceu o nariz para ele e os reviews eram variados. Mas, retroativamente, o filme sobreviveu bem ao teste do tempo. Passados mais de 30 anos de seu lançamento, ele conta hoje com um índice de aprovação de 74% no popular agregador Rotten Tomatoes

Eu não hesitaria em considerá-lo não apenas o segundo melhor "A Hora do Pesadelo" já produzido como, também, um dos melhores filmes de horror dos anos 1980 e uma das melhores sequências do gênero horror de todos os tempos.



A música tema do filme, "Dream Warriors", foi escrita e gravada pelo Dokken, uma banda de heavy metal/hard rock que era muito popular na época. 

A música rendeu até um videoclipe, no qual Patricia Arquette e Robert Englund reprisam seu papeis, respectivamente como Kristen e Freddy Krueger. O videoclipe é pura diversão e imperdível para os fãs do filme. Confira:



O sucesso de "A Hora do Pesadelo 3" levou ao lançamento de uma continuação apenas um ano e meio depois. Falaremos dela em seguida.

Sexy sem ser vulgar ...

O Clube dos Cinco?

Winners don't do drugs!


 Dokken + Freddy Krueger. Ah, os anos 80!



sábado, 3 de agosto de 2019

O Caveira resenha: DEATH HOUSE (2018)



Em um primeiro contato, parece impossível para um fã de filmes de horror não se emocionar com "Death House". Recheado de participações especiais de atores e atrizes que são ícones do gênero, o filme tinha tudo para realizar, no campo do terror, aquilo que "The Expendables" de Stallone concretizou para os fãs de filmes de ação: uma divertida e eletrizante homenagem nostálgica às produções dos anos 1980. Tinha tudo pra dar certo - só que não deu.

Desprovido de atmosfera, de ritmo e de uma história suficientemente interessante e coerente, "Death House" mais parece um irregular trabalho amador costurado unicamente em torno de suas participações especiais. Para os aficcionados pelo gênero, ele oferece a limitada diversão de apresentar ao espectador as aparências atuais de atores que se tornaram celebridades do horror e possibilitar um exercício de memória do tipo "hey, você reconheceu esse aí?". Admito: é legal, a título de curiosidade. Mas, para o espectador que não é familiarizado com o cinema de horror dos anos 1970 e 1980, "Death House" realmente não tem nada a oferecer a não ser humor involuntário e constrangimento.


Como a maior distinção de "Death House" são as participações especiais, vamos a elas! Na película, temos Kane Hodder (o mais famoso intérprete do serial-killer Jason, da série de filmes "Sexta-Feira 13"), Barbara Crampton (do clássico "Re-Animator", no qual ela participa daquela que é certamente a cena de sexo oral mais bizarra da história do cinema - não, corrijo: da história da humanidade!), Tony Todd (o inesquecível "Candyman" e astro do remake de 1990, dirigido por Tom Savini, do lendário "Night of the Living Dead" de Romero), Dee Wallace (de "Howling"), Sid Haig (o Capitão Spaulding de "The Devil`s Rejects" e "House of 1000 Corpses"), Michael Berryman (de "The Hills Have Eyes"), Bill Moseley ("The Texas Chainsaw Massacre 2"), Camile Keaton ("I Spit on Your Grave"), Tony Moran ("Halloween"), Lloyd Kaufman (diretor de filmes trash lendários como "The Toxic Avenger" e "Class of Nuke 'Em High")  e Felissa Rose (a Angela de "Sleepaway Camp" - é, aquele mesmo, possível candidato a filme com o final mais traumático e doentio da história do cinema de horror). Para completar, tem ainda Adrienne Barbeau ("The Fog", "Creepshow") emprestando a sua voz em algumas cenas de narração.


Como se toda essa gente não fosse o suficiente para realizar uma grande festa de horror cinematográfico, o roteiro foi escrito por ninguém menos do que Gunnar Hansen, o célebre assassino Leatherface de "The Texas Chainsaw Massacre". Tristemente, Hansen faleceu em 2015 e não chegou a ver o seu audacioso projeto concretizado.

Toda essa gente boa reunida, infelizmente, foi desperdiçada em um filme que não faz jus ao seu potencial. Harrison Smith (quem?), que assina a direção e a co-autoria do roteiro, não mostrou competência em nenhuma das duas coisas. A história de Hansen claramente tinha algumas boas ideias, mas o roteiro precisaria ter passado por várias revisões salutares até merecer uma filmagem. O resultado é uma trama desnecessariamente pretensiosa, sobrecarregada de elementos em excesso, quase todos utilizados de forma insuficiente. Uma narrativa mais direta e enxuta teria resultado num filme mais coeso, verossímil e interessante.


Aliás, fico me perguntando: se o objetivo era reunir um grande grupo de ícones do cinema de horror de décadas passadas, por que este mesmo espírito não orientou a escolha do nome do diretor? Talvez o maior erro de "Death House" tenha sido a aposta nas participações especiais de um grande número de atores icônicos do cinema de horror, porém desacompanhada de um diretor com semelhante pedigree e know how do gênero. Eu gostaria de ter visto "Death House" sendo dirigido por John Carpenter, Sam Raimi, Tobe Hooper, Stuart Gordon, Tom Holland ou Sean S. Cunningham. Ou quem sabe até mesmo por Lloyd Kaufman, que já havia embarcado no projeto.


A bem da verdade, "Death House" tem alguns bons momentos de splatter e gore. Mas é muito pouco para competir com os intermináveis minutos de canastrice protagonizados pela dupla de protagonistas (os jovens atores Cody Longo e Cortney Palm), que não convencem ninguém e que exibem a mais completa falta de química na tela. Se os "mocinhos" são fraquinhos, o resto também não ajuda. O filme fica devendo bastante em atmosfera e em ação - e, quando tenta agitar um pouco as coisas, o resultado às vezes é constrangedor. A cena da dupla de "mocinhos" descendo pelos cabos de elevador em alta velocidade é uma das coisas mais patéticas e vergonhosas da história da Sétima Arte. 


Na trama, dois agentes do FBI - Toria Boon e Jae Novak - são conduzidos até a "Death House", uma instalação que é ao mesmo tempo prisão federal e centro de pesquisas em criminologia. Um dos prisioneiros do local é o neonazista Alois Sieg, que foi preso por Toria. O estabelecimento tem nove níveis, sendo que o mais subterräneo de todos é reservado exclusivamente para cinco criminosos supostamente imortais e dotados de poderes sobrenaturais. Uma súbita explosão nas instalações acaba dando origem a uma rebelião dos presos que, liderados por Sieg, decidem descer até as profundezas da prisão para libertar as cinco entidades malignas superpoderosas. Toria e Jae acabam seguindo o mesmo caminho, o que os leva a conhecer mais sobre a relação deles próprios com o lugar.

"Death House" vale como curiosidade para fãs do gênero. O seu potencial saudosista retrô é severamente prejudicado por uma falta generalizada de ação, ambientação, humor ou suspense. O filme não assusta, não diverte, não entretém e não diz a que veio. Se a ideia era homenagear o cinema de horror de décadas passadas, faltou atenção ao que tornava aqueles filmes antigos tão legais. Se a ideia era reunir a velha guarda para fazer algo novo e moderno, faltou conteúdo, originalidade e competência. A ideia de reunir uma grande quantidade de nomes do gênero numa única produção é ótima e tinha muito potencial. É uma pena que "Death House" entregue tão pouco, no fim das contas.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

O Caveira resenha: STAR WARS - AFTERMATH ("Marcas da Guerra"), de Chuck Wendig (2015)




Como todo fã de Star Wars já sabe, na esteira da aquisição da Lucasfilm pela Disney em 2012, o conglomerado de Mickey & Cia declarou (mais precisamente em 2014) que todo o vasto Universo Expandido (ou seja, todas as tramas e histórias de Star Wars construídas ao longo das décadas fora das telas do cinema, seja em livros, videogames, HQs, etc) perderia o status de material canônico da franquia e passaria a existir sob o novo nome de Star Wars Legends. Em outras palavras, tudo aquilo que antes era considerado uma extensão enriquecedora do universo cinemático de Star Wars passou, a partir de 2014, a existir na forma de mera curiosidade artística, como "lendas" - ou seja, como histórias alternativas.

Uma das consequências mais dramáticas desta decisão é que os livros conhecidos como Trilogia Thrawn, de autoria de Timothy Zahn, deixaram de ser canônicos. Lançados entre 1991 e 1993, durante mais de vinte anos estes três livros se converteram em objeto de adoração dos fãs de Star Wars porque gozavam da distinção de representar o que de mais próximo se poderia chamar de uma continuação da clássica trilogia dos filmes lançados entre 1978 e 1983.

Estes livros ("Hair of the Empire", "Dark Force Rising" e "The Last Command") eram, portanto, essencialmente a resposta para a pergunta "o que aconteceu lá naquela galáxia muito, muito distante depois do fim de O Retorno de Jedi?".  


Com o anúncio do tão aguardado Episódio VII nos cinemas (que viria a ser lançado em dezembro de 2015) e a "expulsão" da Trilogia Thrawn dos cânones de Star Wars, restava um "buraco negro" cronológico-narrativo de mais de vinte anos entre os fatos mostrados nos final de "O Retorno de Jedi" e o início do Episódio VII ("O Despertar da Força"). E é exatamente aí que entra a nova trilogia "Aftermath", de autoria de Chuck Wendig, cujo primeiro livro é justamente "Aftermath" (ou "Marcas da Guerra", aqui no Brasil).

Lançado em setembro de 2015, no clima de expectativa e preparação para o lançamento do Episódio VII nos cinemas, "Aftermath" não chegou a ser o primeiro livro do novo universo literário canônico de Star Wars pós-2014. Essa honra coube a Star Wars: A New Dawn, lançado ainda em 2014 e de autoria de John Jackson Miller (autor de "Kenobi", recentemente resenhado aqui na Cripta). 


Mas "Aftermath" carrega consigo uma honra muito maior: assumindo o lugar que outrora perteneceu à cultuada Trilogia Thrawn de Timothy Zahn, "Aftermath" dá o pontapé inicial em uma nova trilogia de livros que faz a "ponte" entre o final de "O Retorno de Jedi" e o começo de "O Despertar da Força". Em outras palavras, "Aftermath" agora é a resposta oficial e canônica da Disney para a pergunta "o que aconteceu lá naquela galáxia muito, muito distante depois do fim de O Retorno de Jedi?". 

A história de "Aftermath" começa alguns meses depois do final de "O Retorno de Jedi". A Aliança Rebelde destruiu a segunda Estrela da Morte, Darth Vader e o Imperador Palpatine estão mortos e o Império está em frangalhos, com sua autoridade fragmentada pela galáxia. Uma Nova República começa a ser construída, tendo como Chanceler Suprema a líder rebelde Mon Mothma. Em busca de lideranças e combatentes imperiais escondidos, o veterano piloto Wedge Antilles sai em uma missão solitária de inspeção em uma série de planetas. Depois de passar por cinco outros planetas, Wedge chega a Akiva, onde a maior parte da trama de "Aftermath" se passa.

Rapidamente, Wedge percebe que o lugar está sendo utilizado como ponto de encontro para uma reunião de cúpula de forças imperiais remanescentes. Infelizmente, antes de conseguir transmitir essa informação para os rebeldes, Wedge é capturado. Rapidamente, a sua captura chega ao conhecimento de Norra Wexley, integrante da Aliança Rebelde que retorna a Akiva para reencontrar seu filho Temmin (um adolescente que aparece adulto depois em "O Despertar da Força", como piloto da rebelião, sob o nome Snap Wexley - e interpretado pelo ator Greg Grunberg). 

As circunstâncias e a presença dos imperiais acabam reunindo os Wexleys com o ex agente imperial Sinjir Rath Velus e com a caçadora de recompensas Jas Emari, colocando todos estes novos personagens em rota de colisão com os altos oficiais imperiais presentes em Akiva, liderados pela fria e calculista Almirante Rae Sloane (introduzida anteriormente no já mencionado livro "A New Dawn" de John Jackson Miller).

Esta é, em síntese, a trama de "Aftermath". A questão que realmente importa, no entanto, é: "e aí, o livro é bom?". E a resposta é, simplesmente, sim! Ao contrário, por exemplo, do já mencionado "Kenobi", que pecava por mais parecer uma trama qualquer forçadamente adaptada para incluir elementos do universo Star Wars, este "Aftermath" ostenta uma inegável quantidade de autêntico DNA da franquia. Do começo ao fim, ele constrói uma atmosfera e uma narrativa que soam perfeitamente como uma trama de Star Wars. 

A construção dos novos personagens é muito boa, a interação com velhos rostos conhecidos dos fãs funciona muito bem e o livro termina como uma promissora introdução a um novo capítulo "ponte" entre a trilogia de filmes dos anos 1980 e a nova trilogia iniciada em 2015 com "O Despertar da Força". Chuck Wendig acerta no tom da ação, do humor e dos diálogos, construindo um "Star Wars" dinâmico, divertido e convincente. Além disso, o livro traz bons momentos (embora curtos e rápidos) de reflexão política de certos personagens sobre os destinos da  galáxia e os desafios intermináveis da democracia. Reflexões e mensagens apropriadas e oportunas, sobretudo para o atual momento da política aqui no nosso mundo real. Como curiosidade, vale o registro de que "Aftermath" apresenta o segundo personagem abertamente gay do universo Star Wars, e o primeiro masculino (a primeira foi a Moff Delian Mors em "Star Wars: Lords of the Sith", de Paul S. Kemp, lançado também em 2015). Eu não vou contar quem é: leia e descubra! :)

Claro: nem tudo são flores em Aftermath. Ao longo das 403 páginas do livro, não espere, por exemplo, dar de cara com novas aparições de Luke Skywalker ou da Princesa Leia. A trama é essencialmente focada em personagens inteiramente novos. Apenas dois personagens consagrados da trilogia original de filmes dão as caras neste livro, e se trata literalmente de uma aparição relâmpago, que começa e termina em cinco páginas. É mais um "teaser" do que qualquer outra coisa. 

De resto, alguns coadjuvantes da trilogia clássica, como Mon Mothma, Wedge Antilles e o General Ackbar, também se fazem presentes. Mas é importante que o leitor tenha em mente que, neste ponto, esta nova trilogia "Aftermath", iniciada pelo livro de mesmo nome, se mostra fundamentalmente diferente da antiga trilogia Thrawn: enquanto esta funcionava como uma continuação de "O Retorno de Jedi" focada sobretudo em Luke, Han Solo e Leia, a nova trilogia "Aftermath" (pelo menos no que diz respeito a este primeiro livro) se mostra mais preocupada em apresentar novos personagens do que em focar no clássico trio de heróis dos filmes originais.

Apesar da ausência do amado mestre Luke, "Aftermath" é um Star Wars sólido e divertido, que abre às portas para uma trilogia de livros com muito potencial. Estou curioso pelos próximos, que já estão no mercado: a sequência "Life Debt" foi lançada em 2016 e a conclusão "Empire's End" em 2017. Ambos já estão na minha lista de próximas leituras.

O Caveira recomenda. E que a Força esteja com você!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Caveira analisa: "Star Wars: Kenobi" (2013), de John Jackson Miller



Lançado em 2013 (e em 2015 aqui no Brasil, pela editora Aleph), "Star Wars: Kenobi", escrito por John Jackson Miller, é ao mesmo tempo uma grata surpresa e uma decepção.

Grata surpresa, porque apresenta uma trama no universo Star Wars com uma roupagem bastante diferente, qual seja, um western - o popular "faroeste". Não consigo pensar em uma maneira melhor de definir este livro: um faroeste com o desértico planeta Tatooine no lugar do velho oeste norte-americano, com Obi-Wan Kenobi no lugar do mocinho-forasteiro-pistoleiro, com tusken raiders (os membros do "Povo da Areia", lembra?) no lugar de índios e com fazendeiros e colonos no lugar de ... bem, de fazendeiros e colonos mesmo.

Ao mesmo tempo, o livro é uma decepção. Explico. O título "Kenobi" induz o leitor a acreditar que o personagem não apenas é o protagonista da história, mas também que ele é o "objeto" principal, por assim dizer, da própria trama. Bem, nada poderia estar mais distante da realidade. Kenobi é o protagonista sim, mas de uma história que não contribui praticamente em nada para aprofundar o desenvolvimento do personagem ou revelar novas facetas sobre a sua mente e o seu exílio de longos anos no desértico Tatooine.

Assim, ao contrário do que o título sugere, "Kenobi" não é um livro sobre Kenobi, mas sim meramente uma história protagonizada (parcialmente) por ele. Não espere, portanto, encontrar aqui nenhum tipo de mergulho na psique, na intimidade ou nas reflexões íntimas do personagem. Os momentos neste sentido, ao longo do livro, são tão esparsos e rápidos que mais parecem artificialmente acrescentados na trama apenas para não frustrar completamente as expectativas do leitor que se encantou com a capa do livro.

Aliás, "Kenobi" não tem apenas muito pouco de Kenobi: ele também tem muito pouco de Star Wars. Digo, com a maior tranquilidade, que em menos de cinco horas de trabalho qualquer escritor seria capaz de, apenas revisando o livro e substituindo nomes e citações, transformar esta história em um faroeste genérico ambientado no velho oeste tradicional, sem qualquer relação com nenhum elemento de Star Wars. Substitua Kenobi por algum pistoleiro errante solitário ao melhor estilo Clint Eastwood, substitua Tatooine por algum pequeno vilarejo perdido no meio do deserto do oeste americano na segunda metade do século XIX, substitua os tuskens por índios e pronto: você terá em mãos um western arquetípico.

Esta impressão desconfortável, de que estamos diante de uma história que apenas recebeu uma camada de verniz artificial para ficar parecendo com algo saído do universo Star Wars, é talvez a coisa mais incômoda a respeito de "Star Wars: Kenobi". Enquanto que o título e capa sugerem que estaríamos diante de um aprofundamento literário de um dos personagens mais emblemáticos e importantes deste universo ficcional, o que a trama em si nos entrega é algo muito diferente disso.

É digno de nota que, até como personagem, Kenobi se faz ausente em uma parte considerável do livro. Depois de uma brevíssima aparição no prólogo, iniciado na página 22, o "protagonista" desaparece na página 36 e só reaparece novamente na página 84. Sim: são quase cinquenta páginas nas quais o leitor se vê lendo um livro chamado "Kenobi" que não apenas não trata de Kenobi como sequer conta com a presença dele. É um começo brutalmente maçante e tedioso, que faz o leitor se perguntar "ué, mas afinal de contas o que é isso que estou lendo?". A sensação é algo como se alguém tivesse colado o miolo de um livro na capa de outro.

Depois disso, Kenobi retorna ao palco e seguimos até o final da história, na página 521, basicamente sem avançar um centímetro rumo a um conhecimento mais claro e profundo sobre o personagem. Se alguma vez você já se fez perguntas do tipo "o que Kenobi terá feito durante seus anos de exílio em Tatooine?", "como será que ele vivia?", "ele saía do planeta de vez em quando?" e coisas assim ... bem, esqueça: este livro não introduz praticamente nenhuma informação nova sobre a vida de Obi-Wan no exílio.

É verdade que, depois da aquisição dos direitos da franquia pela Disney, todo o chamado "Universo Expandido" de Star Wars foi declarado "não canônico" e reunido sob a denominação genérica de "Star Wars Legends", com status de histórias alternativas paralelas. A Disney bem que poderia ter poupado "Kenobi" desse tratamento, já que o livro é tão distante do universo dos filmes e alheio ao cânone que, mesmo que ele fosse considerado como uma história da cronologia oficial de Star Wars, ainda assim não correria qualquer risco de contradizer nada que vimos nos filmes.

Tudo isso não significa que "Star Wars: Kenobi" não tenha um lado interessante. Ora, é um faroeste com Obi-Wan Kenobi, fazendeiros trapaceiros, armas laser e espadas de luz, uma donzela em apuros, ataques do Povo da Areia, mafiosos a serviço de Jabba e monstros do deserto, tudo ambientado em Tatooine. Só o fato de realizar a ideia de um western dentro de Star Wars já faz com que o livro de John Jackson Miller mereça um lugarzinho de destaque na longa lista de livros ambientados neste universo ficcional. Some-se a isto o fato de ser muito bem escrito, com bom ritmo (na maior parte do tempo, pelo menos) e temperado com boas doses de humor e ação, e o resultado certamente se mostra merecedor de uma conferida, pelo menos para os fãs de Star Wars.

A chave para evitar decepções aqui é ter em mente que, ao contrário do que sugere o nome da obra e a capa, este NÃO É um livro SOBRE Kenobi. Aliás, o livro poderia muito bem se chamar "Star Wars: Tatooine" ou "Star Wars: Os Colonos do Deserto" ou qualquer coisa assim. A ênfase exagerada no nome de um dos maiores e mais amados personagens de Star Wars acaba se mostrando, ao fim das contas, mais como uma artimanha mercadológica do que como uma decisão artística propriamente dita.

Um pouco menos de oportunismo editorial e uma ênfase maior naquilo que o livro realmente é - ou seja, uma história em pequena escala dentro do universo Star Wars, na qual Kenobi é apenas um participante - talvez fizessem o leitor se sentir mais à vontade com essa experiência diferente, porém interessante, conduzida por John Jackson Miller: a de colocar Obi-Wan Kenobi numa situação e em um cenário mais próximos daquilo que costumamos associar com Clint Eastwood, e não com guerras civis galácticas ou com os dramas e conflitos geracionais da família Skywalker.

sábado, 28 de abril de 2018

O Caveira analisa: "A Delação" (The Whistler), de John Grisham


 

John Grisham não é só o mestre dos thrillers jurídicos: é também uma máquina de publicar livros. Já são 31 obras publicadas de 1988 até agora, e isso contando apenas os seus romances (há ainda duas coleções de histórias curtas, um livro na categoria não-ficção e uma série de seis livros para crianças). Para se ter uma ideia da produtividade de Grisham, basta ver que "A Delação" (The Whistler", lançado em 2016) já foi sucedido por outros dois lançamentos do autor. Grisham realmente não pisa no freio: desde 2007, vem lançando um livro por ano (até dois por ano, casos de 2012 e 2017).

Grisham, é verdade, praticamente nunca deixa a peteca cair. Li mais de uma dezena de livros dele desde que descobri o trabalho do autor no final dos anos 90. Comecei, à época, pelo excelente "The Street Lawyer", de 1998. Admito que nunca li um livro de Grisham que pudesse ser rotulado como "ruim". Mas a produtividade em escala industrial do autor, é claro, cobra um preço: nem todo livro de Grisham chega a ser uma obra-prima. Entre tramas maravilhosas como "The Runaway Jury" (1996), "The King of Torts" (2003) e "The Last Juror" (2004), surgem alguns títulos menos memoráveis, como "Rogue Lawyer" (2015).

"A Delação", numa "Escala Grisham", fica num meio-termo. Dificilmente alguém vai colocar a história entre as melhores já produzidas pelo gênio de Grisham, mas o livro também não merece figurar entre os mais fracos. Apresentando aquele estilo de escrita e trama que Grisham, a esta altura do campeonato, já conduz em modo piloto-automático, "A Delação" não inova muito em relação ao estilo narrativo do autor, mas se destaca por abordar o tema da corrupção judicial (relativamente pouco presente na extensa obra de ficção jurídica de Grisham) e pela história conduzida por uma protagonista feminina bem construída e verossímil, cujos dramas e desafios enfrentados ao longo da história a tornam progressivamente mais próxima do leitor.

Na trama, somos apresentados a Lacy Stoltz, uma investigadora de um órgão chamado Conselho de Conduta Judicial da Flórida. O órgão não está acostumado a grandes emoções, tendo como função basicamente apurar denúncias de pequenas infrações éticas por parte de juízes. Sem estrutura para lidar com casos de maior gravidade, o órgão é pego de surpresa quando Lacy e seu colega Hugo são procurados por um ex-advogado chamado Greg Meyers, que atira no colo dos investigadores uma denúncia-bomba que, se comprovada, levará ao desmantelamento do maior esquema de corrupção judicial já registrado na história dos Estados Unidos. Pouco depois disso, Lacy e Hugo começam a perceber, da pior forma possível, que desta vez não estão lidando com pequenos abusos de poder ou desvios de caráter, mas sim com uma bem organizada máfia de criminosos profissionais.

Dinâmico e envolvente, "A Delação" tem ótimo ritmo e mantém o leitor interessado no desenrolar da trama da primeira à última página. A conclusão da história, no entanto, peca por ser previsível e sem maiores surpresas, representando uma resolução "morna" para uma trama repleta de momentos de tensão.

Embora a parte final da história seja um pouco burocrática e sem surpresas, as reviravoltas e sobressaltos ao longo da trama são mais do que suficientes não apenas para colocar "A Delação" entre aquelas obras de Grisham que são incapazes de decepcionar os fãs de longa data do autor, mas também como um título apto a arregimentar novos fãs para o mestre dos "romances de tribunais".

sábado, 31 de março de 2018

Review do Caveira: "2019 - Depois da Queda de Nova York" (1983)


"Fuga de Nova York", dirigido por John Carpenter e lançado em 1981, é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e um clássico da ficção científica distópica do cinema. Cultuado e influente, o filme legou para a cultura pop o icônico personagem Snake Plissken (interpretado por Kurt Russell), que inclusive inspirou um dos heróis mais famosos dos videogames das últimas décadas - o "Snake" (em suas diferentes encarnações) da série Metal Gear Solid.

Mas a verdade é que "Fuga de Nova York" não inspirou apenas trabalhos bem sucedidos e famosos. O clássico de Carpenter também serviu de inspiração direta para um filme italiano relativamente obscuro, que não fez muito barulho na sua época e que hoje encontra-se no limiar do esquecimento completo: "2019 - Depois da Queda de Nova York".


Lançado em 1983, com versões faladas em inglês (2019, After the Fall of New York) e italiano (2019 - Dopo la caduta di New York), este filme dirigido por Sergio Martino é uma curiosidade histórica digna de nota. Elementos de "Fuga de Nova York", "Mad Max" e "O Planeta dos Macacos" são misturados em uma história completamente aloprada, que tenta emular a atmosfera distópica e pós-apocalíptica do filme de John Carpenter.

Três semelhanças com "Fuga de Nova York" saltam aos olhos. Primeira, o cenário: uma Nova York futurista e semi-destruída. A diferença pontual é que, enquanto o filme de Carpenter se passava no "distante futuro" de 1997, a resposta italiana de Sergio Martino é ambientada em 2019.


Segunda semelhança, e talvez a mais cômica e divertida de todas: o herói. O protagonista Parsifal é um escancarado Snake Plissken "wannabe". Michael Sopkiw emula com relativa competência o look de galã de Kurt Russell, o jeitão de "bad boy" e o ar "não estou nem aí" de anti-herói, típicos de Snake. O grande problema é a canastrice. Enquanto Russell é um ótimo ator, o mesmo simplesmente não pode ser dito de Sopkiw. Dos vários momentos de atuações exageradas e amadoras registrados na película, certamente alguns dos mais hilários são protagonizados por Sopkiw. Ele tem o visual correto e os trejeitos de anti-herói, mas lhe faltam por completo as habilidades de ator.


Terceira semelhança: assim como Snake em "Fuga de Nova York", também Parsifal é chamado pelas autoridades para liderar uma missão secreta de infiltração em Nova York. O objetivo da missão, no entanto, não poderia ser mais distinto. Enquanto Snake precisava localizar e resgatar o Presidente dos Estados Unidos depois de um ataque terrorista ao Air Force One, a missão de Parsifal é localizar a última mulher fértil do mundo - que está em algum lugar da Nova York pós-apocalíptica.

"Última mulher fértil do mundo"? Espera aí que eu explico: vinte anos antes dos eventos do filme, uma guerra global transformou o planeta inteiro em ruínas radioativas. O mundo inteiro está devastado, as pessoas sofrem de doenças e mutações e a fertilidade desapareceu. Nenhuma criança nasceu nos últimos quinze anos e ...

Êpa, a gente já viu um argumento semelhante em outro filme posterior, não é mesmo? Será que o aclamado "Children of Men" (2006) de Alfonso Cuarón e o livro de 1992 que o inspirou foram buscar, neste obscuro filme-B italiano, a ideia do "mundo no qual não nascem mais crianças"? Provavelmente não. Mas ficamos livres para conjecturar.

Seguindo: além do mundo destruído e contaminado e da humanidade infértil, os americanos têm ainda mais um problema na trama desta pérola italiana. É que uma força político-militar chamada Euraks unificou as antigas Europa, Ásia e África, e estende agora os seus exércitos para dominar os antigos Estados Unidos. Os Euraks já são os governantes de fato de Nova York, e passam os seus dias com atividades recreativas como chacinar pessoas a esmo e levar algumas cobaias para testes laboratoriais diversos, nos quais os Euraks buscam desesperadamente alguma maneira de salvar a humanidade e restabelecer a fertilidade e a reprodução.


Mas isso não significa que os americanos foram varridos do mapa. Depois do aperto, o que sobrou do governo americano é transferido para um quartel general secreto ... no Alaska. É, no Alaska. Com um visual que lembra um pouco a Fortaleza da Solidão do Superman. Neste QG secreto altamente sofisticado, o Presidente da Federação Americana está trabalhando na rearticulação das tropas americanas, para botar para correr os invasores Euraks.

O governo americano escondido no Alaska tem mais um plano audacioso: estabelecer uma nova colônia humana ... em Alpha Centauri! Ali pertinho, sabe? Tipo, a 4 anos-luz do Sol. É pegando ali a saída do nosso Sistema Solar, logo à direita.

Para realizar este plano ambicioso, o governo secreto americano conta com uma nave espacial que parece saída de algum episódio de Jornada nas Estrelas. Mas é claro que nada disso servirá para nada se os colonos humanos não puderem se reproduzir. E é por isso que Parsifal recebe a missão de resgatar a última mulher fértil do mundo e trazê-la até a nave.


Em um roteiro completamente pirado, com mais furos do que um queijo suíço, este ponto é um dos que mais chamam a atenção do espectador. Estamos em um ano 2019 distópico no qual as pessoas têm armas de raios laser, naves sofisticadas que mais parecem tecnologia alienígena e até mesmo condições de estabelecer uma colônia humana em Alpha Centauri. Mas, inexplicavelmente, os humanos foram capazes de desenvolver toda essa tecnologia digna de "Buck Rogers no Século XXV" ao mesmo tempo em que não evoluíram absolutamente um centímetro sequer em direção à reprodução humana em laboratório. No ano 2019 em que vive Parsifal, a tecnologia de reprodução em laboratório parece quase ter regredido em relação ao ano de 1983 no qual o filme foi lançado. Vai entender...

Também é curioso que o governo secreto dos EUA tenha conhecimento, como fato, de que a "última" mulher fértil do mundo estaria escondida em algum lugar nas ruínas de Nova York. O filme nem sequer tenta explicar de que forma estas autoridades teriam chegado em tal conclusão. Também não fica claro como é que essa gente escondida no Alaska poderia saber do paradeiro de uma moça escondida em Nova York, especialmente quando se trata de (WARNING: SPOILER ALERT!!!) ... uma jovem que está sendo mantida em coma induzido pelo pai há vinte anos! Ora, como é que alguém poderia saber da existência dela? Pior: como é que alguém poderia saber se ela é fértil ou não, se passou a vida inteira escondida pelo pai e em coma?


Pois é: esse filme é doido!

Para realizar a sua missão (e para a premissa ficar pelo menos um pouquinho diferente de "Fuga de Nova York"), o herói dessa vez não será infiltrado sozinho. Ao contrário de Snake Plissken, que trabalha sozinho, o seu gêmeo italiano Parsifal vai acompanhado de outros dois soldados. Um deles tem uma mão robótica e o outro usa um tapa-olho. É, um tapa-olho, parecido com o do Snake. Aparentemente, os realizadores de "2019" acharam que seria uma imitação muito escancarada colocar um tapa-olho em Parsifal, e então resolveram caracterizar o protagonista com uma bandana na testa (para deixar o cabelo mais estiloso) e passaram o tapa-olho para o colega de Parsifal. Fantástico!

O curioso sobre "2019" é que, ao contrário do que se poderia pensar em um primeiro momento, não é o orçamento apertado que estraga o filme. De forma alguma. Apesar de ser claramente um filme B com atmosfera trash, a produção foi feita com visível e notável esmero. Tirando alguns efeitos especiais de maquetes que simplesmente não restaram convincentes, de resto a produção do filme realiza a proeza de criar uma ambientação adequada de mundo pós-apocalíptico e que se mostra à altura das ambições narrativas do filme. O diretor Sergio Martino e sua equipe, aqui, fizeram muito com muito pouco.


O que realmente detona "2019" (e certamente está na raiz do seu fracasso comercial e posterior desaparecimento) é o roteiro rocambolesco e risível, que precisaria ter passado por pelo menos mais uma dúzia de revisões críticas antes do início da filmagem. É tanta coisa errada que fica até difícil de listar tudo. O espectador é apresentado a temáticas que simplesmente não se desenvolvem na tela, como a ideia de que o amor redime uma vida em meio à desesperança (um tema que é trabalhado apenas no final do filme, em dois minutos, e logo desaparece). O espectador é apresentado ao líder dos Euraks, em um dos momentos de melhor atuação do filme, apenas para descobrir posteriormente que ele só voltará em mais uma pequena cena posterior e que jamais dividirá a tela com o protagonista Parsifal. O espectador é apresentado, nos últimos minutos do filme, ao problema que Parsifal tem com ciborgues - mesmo com um que passou o filme inteiro salvando a pele do herói. Por que um ciborgue é necessariamente algo ruim, ainda que esteja lutando fielmente pela causa do mocinho? Só Deus sabe!

Enfim, o filme oferece uma infinidade de pontos de partida que não levam a lugar algum e que não são devidamente desenvolvidos, resultando numa salada mista de humanidade estéril pós-apocalipse, ciborgues, naves espaciais, homens-macaco (é, é isso aí mesmo, não vou nem começar...) e por aí vai. Para não falar de algumas opções estéticas esdrúxulas. Exemplifico: no mundo de "2019", praticamente todo mundo é feio, sujo, fedido e coberto de feridas e deformidades oriundas da radiação. Todo mundo - menos o galã Parsifal, a belíssima gata loira pela qual ele se apaixona ao longo da trama e a vilã Ania, intepretada por Anna Kanakis, modelo que foi a Miss Itália de 1977. O constraste entre a lindeza limpinha e cheirosa deste trio de beldades com o look sujismundo-encardido-mutante de todo o resto do elenco é uma das coisas mais cômicas do filme.


Um roteiro melhor, com muitas revisões, aliadas a um trabalho de atuação melhor, poderiam ter feito de "2019" um clássico europeu do cinema de ficção-científica. O resultado, no entanto, acaba sendo um clone de "Fuga de Nova York" em versão chá de cogumelo, com uma trama que parece ter sido concebida depois da mistura de um coquetel de drogas.

Em resumo: o filme é recomendável? Depende. Se você se enquadra naquilo que poderíamos chamar de "espectador médio", recomendo não ir atrás deste filme. Você ficará com a sensação de que colocou duas horas de sua vida no lixo. Mas, para quem é fã de filmes de horror e ficção-científica, e sobretudo para quem é fã de "Fuga de Nova York", este pseudo-clone italiano é absolutamente imperdível. Para este público, a diversão é garantida: tem sci-fi, tem aquela atmosfera de trash com filme B, tem muito sangue e splatter, tem efeitos "especiais" de rolar de rir, tem o "bad boy" Parsifal apanhando e sendo capturado sem parar (aliás, por que um cara que perde quase todas é apontado como "a última esperança" da humanidade)?


Claro, é preciso um pouco de estômago e de mente aberta também, na hora de encarar este filme. Afinal, não é todo dia que a gente vê uma moça em coma sendo estuprada por um homem-macaco que quer se reproduzir (graças a Deus, essa piração asquerosa gratuita e desnecessária não é exibida na tela, ficando apenas sugerida entre uma cena e outra). Vai entender a cabeça destes roteiristas que acharam que homens macaco, ciborgues, naves espaciais, um governo secreto no Alaska e um estupro de mulher em coma seriam elementos "indispensáveis" para a trama...


Louvável pelo tanto que constrói em cima de um orçamento tão pobre, admirável pelas suas pretensões e ambições e histericamente risível pela quantidade de absurdos narrativos e falta de noção e bom-senso dos roteiristas, "2019 - Depois da Queda de Nova York", vale uma conferida. Um pouco pela ambientação e atmosfera, um pouco pela ação, mas sobretudo pelos repetidos momentos de canastrice, exagero e nonsense absurdo, que fazem tudo resvalar para o farsesco e render boas risadas.