terça-feira, 14 de agosto de 2018

O Caveira resenha: STAR WARS - AFTERMATH ("Marcas da Guerra"), de Chuck Wendig (2015)




Como todo fã de Star Wars já sabe, na esteira da aquisição da Lucasfilm pela Disney em 2012, o conglomerado de Mickey & Cia declarou (mais precisamente em 2014) que todo o vasto Universo Expandido (ou seja, todas as tramas e histórias de Star Wars construídas ao longo das décadas fora das telas do cinema, seja em livros, videogames, HQs, etc) perderia o status de material canônico da franquia e passaria a existir sob o novo nome de Star Wars Legends. Em outras palavras, tudo aquilo que antes era considerado uma extensão enriquecedora do universo cinemático de Star Wars passou, a partir de 2014, a existir na forma de mera curiosidade artística, como "lendas" - ou seja, como histórias alternativas.

Uma das consequências mais dramáticas desta decisão é que os livros conhecidos como Trilogia Thrawn, de autoria de Timothy Zahn, deixaram de ser canônicos. Lançados entre 1991 e 1993, durante mais de vinte anos estes três livros se converteram em objeto de adoração dos fãs de Star Wars porque gozavam da distinção de representar o que de mais próximo se poderia chamar de uma continuação da clássica trilogia dos filmes lançados entre 1978 e 1983.

Estes livros ("Hair of the Empire", "Dark Force Rising" e "The Last Command") eram, portanto, essencialmente a resposta para a pergunta "o que aconteceu lá naquela galáxia muito, muito distante depois do fim de O Retorno de Jedi?".  


Com o anúncio do tão aguardado Episódio VII nos cinemas (que viria a ser lançado em dezembro de 2015) e a "expulsão" da Trilogia Thrawn dos cânones de Star Wars, restava um "buraco negro" cronológico-narrativo de mais de vinte anos entre os fatos mostrados nos final de "O Retorno de Jedi" e o início do Episódio VII ("O Despertar da Força"). E é exatamente aí que entra a nova trilogia "Aftermath", de autoria de Chuck Wendig, cujo primeiro livro é justamente "Aftermath" (ou "Marcas da Guerra", aqui no Brasil).

Lançado em setembro de 2015, no clima de expectativa e preparação para o lançamento do Episódio VII nos cinemas, "Aftermath" não chegou a ser o primeiro livro do novo universo literário canônico de Star Wars pós-2014. Essa honra coube a Star Wars: A New Dawn, lançado ainda em 2014 e de autoria de John Jackson Miller (autor de "Kenobi", recentemente resenhado aqui na Cripta). 


Mas "Aftermath" carrega consigo uma honra muito maior: assumindo o lugar que outrora perteneceu à cultuada Trilogia Thrawn de Timothy Zahn, "Aftermath" dá o pontapé inicial em uma nova trilogia de livros que faz a "ponte" entre o final de "O Retorno de Jedi" e o começo de "O Despertar da Força". Em outras palavras, "Aftermath" agora é a resposta oficial e canônica da Disney para a pergunta "o que aconteceu lá naquela galáxia muito, muito distante depois do fim de O Retorno de Jedi?". 

A história de "Aftermath" começa alguns meses depois do final de "O Retorno de Jedi". A Aliança Rebelde destruiu a segunda Estrela da Morte, Darth Vader e o Imperador Palpatine estão mortos e o Império está em frangalhos, com sua autoridade fragmentada pela galáxia. Uma Nova República começa a ser construída, tendo como Chanceler Suprema a líder rebelde Mon Mothma. Em busca de lideranças e combatentes imperiais escondidos, o veterano piloto Wedge Antilles sai em uma missão solitária de inspeção em uma série de planetas. Depois de passar por cinco outros planetas, Wedge chega a Akiva, onde a maior parte da trama de "Aftermath" se passa.

Rapidamente, Wedge percebe que o lugar está sendo utilizado como ponto de encontro para uma reunião de cúpula de forças imperiais remanescentes. Infelizmente, antes de conseguir transmitir essa informação para os rebeldes, Wedge é capturado. Rapidamente, a sua captura chega ao conhecimento de Norra Wexley, integrante da Aliança Rebelde que retorna a Akiva para reencontrar seu filho Temmin (um adolescente que aparece adulto depois em "O Despertar da Força", como piloto da rebelião, sob o nome Snap Wexley - e interpretado pelo ator Greg Grunberg). 

As circunstâncias e a presença dos imperiais acabam reunindo os Wexleys com o ex agente imperial Sinjir Rath Velus e com a caçadora de recompensas Jas Emari, colocando todos estes novos personagens em rota de colisão com os altos oficiais imperiais presentes em Akiva, liderados pela fria e calculista Almirante Rae Sloane (introduzida anteriormente no já mencionado livro "A New Dawn" de John Jackson Miller).

Esta é, em síntese, a trama de "Aftermath". A questão que realmente importa, no entanto, é: "e aí, o livro é bom?". E a resposta é, simplesmente, sim! Ao contrário, por exemplo, do já mencionado "Kenobi", que pecava por mais parecer uma trama qualquer forçadamente adaptada para incluir elementos do universo Star Wars, este "Aftermath" ostenta uma inegável quantidade de autêntico DNA da franquia. Do começo ao fim, ele constrói uma atmosfera e uma narrativa que soam perfeitamente como uma trama de Star Wars. 

A construção dos novos personagens é muito boa, a interação com velhos rostos conhecidos dos fãs funciona muito bem e o livro termina como uma promissora introdução a um novo capítulo "ponte" entre a trilogia de filmes dos anos 1980 e a nova trilogia iniciada em 2015 com "O Despertar da Força". Chuck Wendig acerta no tom da ação, do humor e dos diálogos, construindo um "Star Wars" dinâmico, divertido e convincente. Além disso, o livro traz bons momentos (embora curtos e rápidos) de reflexão política de certos personagens sobre os destinos da  galáxia e os desafios intermináveis da democracia. Reflexões e mensagens apropriadas e oportunas, sobretudo para o atual momento da política aqui no nosso mundo real. Como curiosidade, vale o registro de que "Aftermath" apresenta o segundo personagem abertamente gay do universo Star Wars, e o primeiro masculino (a primeira foi a Moff Delian Mors em "Star Wars: Lords of the Sith", de Paul S. Kemp, lançado também em 2015). Eu não vou contar quem é: leia e descubra! :)

Claro: nem tudo são flores em Aftermath. Ao longo das 403 páginas do livro, não espere, por exemplo, dar de cara com novas aparições de Luke Skywalker ou da Princesa Leia. A trama é essencialmente focada em personagens inteiramente novos. Apenas dois personagens consagrados da trilogia original de filmes dão as caras neste livro, e se trata literalmente de uma aparição relâmpago, que começa e termina em cinco páginas. É mais um "teaser" do que qualquer outra coisa. 

De resto, alguns coadjuvantes da trilogia clássica, como Mon Mothma, Wedge Antilles e o General Ackbar, também se fazem presentes. Mas é importante que o leitor tenha em mente que, neste ponto, esta nova trilogia "Aftermath", iniciada pelo livro de mesmo nome, se mostra fundamentalmente diferente da antiga trilogia Thrawn: enquanto esta funcionava como uma continuação de "O Retorno de Jedi" focada sobretudo em Luke, Han Solo e Leia, a nova trilogia "Aftermath" (pelo menos no que diz respeito a este primeiro livro) se mostra mais preocupada em apresentar novos personagens do que em focar no clássico trio de heróis dos filmes originais.

Apesar da ausência do amado mestre Luke, "Aftermath" é um Star Wars sólido e divertido, que abre às portas para uma trilogia de livros com muito potencial. Estou curioso pelos próximos, que já estão no mercado: a sequência "Life Debt" foi lançada em 2016 e a conclusão "Empire's End" em 2017. Ambos já estão na minha lista de próximas leituras.

O Caveira recomenda. E que a Força esteja com você!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Caveira analisa: "Star Wars: Kenobi" (2013), de John Jackson Miller



Lançado em 2013 (e em 2015 aqui no Brasil, pela editora Aleph), "Star Wars: Kenobi", escrito por John Jackson Miller, é ao mesmo tempo uma grata surpresa e uma decepção.

Grata surpresa, porque apresenta uma trama no universo Star Wars com uma roupagem bastante diferente, qual seja, um western - o popular "faroeste". Não consigo pensar em uma maneira melhor de definir este livro: um faroeste com o desértico planeta Tatooine no lugar do velho oeste norte-americano, com Obi-Wan Kenobi no lugar do mocinho-forasteiro-pistoleiro, com tusken raiders (os membros do "Povo da Areia", lembra?) no lugar de índios e com fazendeiros e colonos no lugar de ... bem, de fazendeiros e colonos mesmo.

Ao mesmo tempo, o livro é uma decepção. Explico. O título "Kenobi" induz o leitor a acreditar que o personagem não apenas é o protagonista da história, mas também que ele é o "objeto" principal, por assim dizer, da própria trama. Bem, nada poderia estar mais distante da realidade. Kenobi é o protagonista sim, mas de uma história que não contribui praticamente em nada para aprofundar o desenvolvimento do personagem ou revelar novas facetas sobre a sua mente e o seu exílio de longos anos no desértico Tatooine.

Assim, ao contrário do que o título sugere, "Kenobi" não é um livro sobre Kenobi, mas sim meramente uma história protagonizada (parcialmente) por ele. Não espere, portanto, encontrar aqui nenhum tipo de mergulho na psique, na intimidade ou nas reflexões íntimas do personagem. Os momentos neste sentido, ao longo do livro, são tão esparsos e rápidos que mais parecem artificialmente acrescentados na trama apenas para não frustrar completamente as expectativas do leitor que se encantou com a capa do livro.

Aliás, "Kenobi" não tem apenas muito pouco de Kenobi: ele também tem muito pouco de Star Wars. Digo, com a maior tranquilidade, que em menos de cinco horas de trabalho qualquer escritor seria capaz de, apenas revisando o livro e substituindo nomes e citações, transformar esta história em um faroeste genérico ambientado no velho oeste tradicional, sem qualquer relação com nenhum elemento de Star Wars. Substitua Kenobi por algum pistoleiro errante solitário ao melhor estilo Clint Eastwood, substitua Tatooine por algum pequeno vilarejo perdido no meio do deserto do oeste americano na segunda metade do século XIX, substitua os tuskens por índios e pronto: você terá em mãos um western arquetípico.

Esta impressão desconfortável, de que estamos diante de uma história que apenas recebeu uma camada de verniz artificial para ficar parecendo com algo saído do universo Star Wars, é talvez a coisa mais incômoda a respeito de "Star Wars: Kenobi". Enquanto que o título e capa sugerem que estaríamos diante de um aprofundamento literário de um dos personagens mais emblemáticos e importantes deste universo ficcional, o que a trama em si nos entrega é algo muito diferente disso.

É digno de nota que, até como personagem, Kenobi se faz ausente em uma parte considerável do livro. Depois de uma brevíssima aparição no prólogo, iniciado na página 22, o "protagonista" desaparece na página 36 e só reaparece novamente na página 84. Sim: são quase cinquenta páginas nas quais o leitor se vê lendo um livro chamado "Kenobi" que não apenas não trata de Kenobi como sequer conta com a presença dele. É um começo brutalmente maçante e tedioso, que faz o leitor se perguntar "ué, mas afinal de contas o que é isso que estou lendo?". A sensação é algo como se alguém tivesse colado o miolo de um livro na capa de outro.

Depois disso, Kenobi retorna ao palco e seguimos até o final da história, na página 521, basicamente sem avançar um centímetro rumo a um conhecimento mais claro e profundo sobre o personagem. Se alguma vez você já se fez perguntas do tipo "o que Kenobi terá feito durante seus anos de exílio em Tatooine?", "como será que ele vivia?", "ele saía do planeta de vez em quando?" e coisas assim ... bem, esqueça: este livro não introduz praticamente nenhuma informação nova sobre a vida de Obi-Wan no exílio.

É verdade que, depois da aquisição dos direitos da franquia pela Disney, todo o chamado "Universo Expandido" de Star Wars foi declarado "não canônico" e reunido sob a denominação genérica de "Star Wars Legends", com status de histórias alternativas paralelas. A Disney bem que poderia ter poupado "Kenobi" desse tratamento, já que o livro é tão distante do universo dos filmes e alheio ao cânone que, mesmo que ele fosse considerado como uma história da cronologia oficial de Star Wars, ainda assim não correria qualquer risco de contradizer nada que vimos nos filmes.

Tudo isso não significa que "Star Wars: Kenobi" não tenha um lado interessante. Ora, é um faroeste com Obi-Wan Kenobi, fazendeiros trapaceiros, armas laser e espadas de luz, uma donzela em apuros, ataques do Povo da Areia, mafiosos a serviço de Jabba e monstros do deserto, tudo ambientado em Tatooine. Só o fato de realizar a ideia de um western dentro de Star Wars já faz com que o livro de John Jackson Miller mereça um lugarzinho de destaque na longa lista de livros ambientados neste universo ficcional. Some-se a isto o fato de ser muito bem escrito, com bom ritmo (na maior parte do tempo, pelo menos) e temperado com boas doses de humor e ação, e o resultado certamente se mostra merecedor de uma conferida, pelo menos para os fãs de Star Wars.

A chave para evitar decepções aqui é ter em mente que, ao contrário do que sugere o nome da obra e a capa, este NÃO É um livro SOBRE Kenobi. Aliás, o livro poderia muito bem se chamar "Star Wars: Tatooine" ou "Star Wars: Os Colonos do Deserto" ou qualquer coisa assim. A ênfase exagerada no nome de um dos maiores e mais amados personagens de Star Wars acaba se mostrando, ao fim das contas, mais como uma artimanha mercadológica do que como uma decisão artística propriamente dita.

Um pouco menos de oportunismo editorial e uma ênfase maior naquilo que o livro realmente é - ou seja, uma história em pequena escala dentro do universo Star Wars, na qual Kenobi é apenas um participante - talvez fizessem o leitor se sentir mais à vontade com essa experiência diferente, porém interessante, conduzida por John Jackson Miller: a de colocar Obi-Wan Kenobi numa situação e em um cenário mais próximos daquilo que costumamos associar com Clint Eastwood, e não com guerras civis galácticas ou com os dramas e conflitos geracionais da família Skywalker.

sábado, 28 de abril de 2018

O Caveira analisa: "A Delação" (The Whistler), de John Grisham


 

John Grisham não é só o mestre dos thrillers jurídicos: é também uma máquina de publicar livros. Já são 31 obras publicadas de 1988 até agora, e isso contando apenas os seus romances (há ainda duas coleções de histórias curtas, um livro na categoria não-ficção e uma série de seis livros para crianças). Para se ter uma ideia da produtividade de Grisham, basta ver que "A Delação" (The Whistler", lançado em 2016) já foi sucedido por outros dois lançamentos do autor. Grisham realmente não pisa no freio: desde 2007, vem lançando um livro por ano (até dois por ano, casos de 2012 e 2017).

Grisham, é verdade, praticamente nunca deixa a peteca cair. Li mais de uma dezena de livros dele desde que descobri o trabalho do autor no final dos anos 90. Comecei, à época, pelo excelente "The Street Lawyer", de 1998. Admito que nunca li um livro de Grisham que pudesse ser rotulado como "ruim". Mas a produtividade em escala industrial do autor, é claro, cobra um preço: nem todo livro de Grisham chega a ser uma obra-prima. Entre tramas maravilhosas como "The Runaway Jury" (1996), "The King of Torts" (2003) e "The Last Juror" (2004), surgem alguns títulos menos memoráveis, como "Rogue Lawyer" (2015).

"A Delação", numa "Escala Grisham", fica num meio-termo. Dificilmente alguém vai colocar a história entre as melhores já produzidas pelo gênio de Grisham, mas o livro também não merece figurar entre os mais fracos. Apresentando aquele estilo de escrita e trama que Grisham, a esta altura do campeonato, já conduz em modo piloto-automático, "A Delação" não inova muito em relação ao estilo narrativo do autor, mas se destaca por abordar o tema da corrupção judicial (relativamente pouco presente na extensa obra de ficção jurídica de Grisham) e pela história conduzida por uma protagonista feminina bem construída e verossímil, cujos dramas e desafios enfrentados ao longo da história a tornam progressivamente mais próxima do leitor.

Na trama, somos apresentados a Lacy Stoltz, uma investigadora de um órgão chamado Conselho de Conduta Judicial da Flórida. O órgão não está acostumado a grandes emoções, tendo como função basicamente apurar denúncias de pequenas infrações éticas por parte de juízes. Sem estrutura para lidar com casos de maior gravidade, o órgão é pego de surpresa quando Lacy e seu colega Hugo são procurados por um ex-advogado chamado Greg Meyers, que atira no colo dos investigadores uma denúncia-bomba que, se comprovada, levará ao desmantelamento do maior esquema de corrupção judicial já registrado na história dos Estados Unidos. Pouco depois disso, Lacy e Hugo começam a perceber, da pior forma possível, que desta vez não estão lidando com pequenos abusos de poder ou desvios de caráter, mas sim com uma bem organizada máfia de criminosos profissionais.

Dinâmico e envolvente, "A Delação" tem ótimo ritmo e mantém o leitor interessado no desenrolar da trama da primeira à última página. A conclusão da história, no entanto, peca por ser previsível e sem maiores surpresas, representando uma resolução "morna" para uma trama repleta de momentos de tensão.

Embora a parte final da história seja um pouco burocrática e sem surpresas, as reviravoltas e sobressaltos ao longo da trama são mais do que suficientes não apenas para colocar "A Delação" entre aquelas obras de Grisham que são incapazes de decepcionar os fãs de longa data do autor, mas também como um título apto a arregimentar novos fãs para o mestre dos "romances de tribunais".

sábado, 31 de março de 2018

Review do Caveira: "2019 - Depois da Queda de Nova York" (1983)


"Fuga de Nova York", dirigido por John Carpenter e lançado em 1981, é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e um clássico da ficção científica distópica do cinema. Cultuado e influente, o filme legou para a cultura pop o icônico personagem Snake Plissken (interpretado por Kurt Russell), que inclusive inspirou um dos heróis mais famosos dos videogames das últimas décadas - o "Snake" (em suas diferentes encarnações) da série Metal Gear Solid.

Mas a verdade é que "Fuga de Nova York" não inspirou apenas trabalhos bem sucedidos e famosos. O clássico de Carpenter também serviu de inspiração direta para um filme italiano relativamente obscuro, que não fez muito barulho na sua época e que hoje encontra-se no limiar do esquecimento completo: "2019 - Depois da Queda de Nova York".


Lançado em 1983, com versões faladas em inglês (2019, After the Fall of New York) e italiano (2019 - Dopo la caduta di New York), este filme dirigido por Sergio Martino é uma curiosidade histórica digna de nota. Elementos de "Fuga de Nova York", "Mad Max" e "O Planeta dos Macacos" são misturados em uma história completamente aloprada, que tenta emular a atmosfera distópica e pós-apocalíptica do filme de John Carpenter.

Três semelhanças com "Fuga de Nova York" saltam aos olhos. Primeira, o cenário: uma Nova York futurista e semi-destruída. A diferença pontual é que, enquanto o filme de Carpenter se passava no "distante futuro" de 1997, a resposta italiana de Sergio Martino é ambientada em 2019.


Segunda semelhança, e talvez a mais cômica e divertida de todas: o herói. O protagonista Parsifal é um escancarado Snake Plissken "wannabe". Michael Sopkiw emula com relativa competência o look de galã de Kurt Russell, o jeitão de "bad boy" e o ar "não estou nem aí" de anti-herói, típicos de Snake. O grande problema é a canastrice. Enquanto Russell é um ótimo ator, o mesmo simplesmente não pode ser dito de Sopkiw. Dos vários momentos de atuações exageradas e amadoras registrados na película, certamente alguns dos mais hilários são protagonizados por Sopkiw. Ele tem o visual correto e os trejeitos de anti-herói, mas lhe faltam por completo as habilidades de ator.


Terceira semelhança: assim como Snake em "Fuga de Nova York", também Parsifal é chamado pelas autoridades para liderar uma missão secreta de infiltração em Nova York. O objetivo da missão, no entanto, não poderia ser mais distinto. Enquanto Snake precisava localizar e resgatar o Presidente dos Estados Unidos depois de um ataque terrorista ao Air Force One, a missão de Parsifal é localizar a última mulher fértil do mundo - que está em algum lugar da Nova York pós-apocalíptica.

"Última mulher fértil do mundo"? Espera aí que eu explico: vinte anos antes dos eventos do filme, uma guerra global transformou o planeta inteiro em ruínas radioativas. O mundo inteiro está devastado, as pessoas sofrem de doenças e mutações e a fertilidade desapareceu. Nenhuma criança nasceu nos últimos quinze anos e ...

Êpa, a gente já viu um argumento semelhante em outro filme posterior, não é mesmo? Será que o aclamado "Children of Men" (2006) de Alfonso Cuarón e o livro de 1992 que o inspirou foram buscar, neste obscuro filme-B italiano, a ideia do "mundo no qual não nascem mais crianças"? Provavelmente não. Mas ficamos livres para conjecturar.

Seguindo: além do mundo destruído e contaminado e da humanidade infértil, os americanos têm ainda mais um problema na trama desta pérola italiana. É que uma força político-militar chamada Euraks unificou as antigas Europa, Ásia e África, e estende agora os seus exércitos para dominar os antigos Estados Unidos. Os Euraks já são os governantes de fato de Nova York, e passam os seus dias com atividades recreativas como chacinar pessoas a esmo e levar algumas cobaias para testes laboratoriais diversos, nos quais os Euraks buscam desesperadamente alguma maneira de salvar a humanidade e restabelecer a fertilidade e a reprodução.


Mas isso não significa que os americanos foram varridos do mapa. Depois do aperto, o que sobrou do governo americano é transferido para um quartel general secreto ... no Alaska. É, no Alaska. Com um visual que lembra um pouco a Fortaleza da Solidão do Superman. Neste QG secreto altamente sofisticado, o Presidente da Federação Americana está trabalhando na rearticulação das tropas americanas, para botar para correr os invasores Euraks.

O governo americano escondido no Alaska tem mais um plano audacioso: estabelecer uma nova colônia humana ... em Alpha Centauri! Ali pertinho, sabe? Tipo, a 4 anos-luz do Sol. É pegando ali a saída do nosso Sistema Solar, logo à direita.

Para realizar este plano ambicioso, o governo secreto americano conta com uma nave espacial que parece saída de algum episódio de Jornada nas Estrelas. Mas é claro que nada disso servirá para nada se os colonos humanos não puderem se reproduzir. E é por isso que Parsifal recebe a missão de resgatar a última mulher fértil do mundo e trazê-la até a nave.


Em um roteiro completamente pirado, com mais furos do que um queijo suíço, este ponto é um dos que mais chamam a atenção do espectador. Estamos em um ano 2019 distópico no qual as pessoas têm armas de raios laser, naves sofisticadas que mais parecem tecnologia alienígena e até mesmo condições de estabelecer uma colônia humana em Alpha Centauri. Mas, inexplicavelmente, os humanos foram capazes de desenvolver toda essa tecnologia digna de "Buck Rogers no Século XXV" ao mesmo tempo em que não evoluíram absolutamente um centímetro sequer em direção à reprodução humana em laboratório. No ano 2019 em que vive Parsifal, a tecnologia de reprodução em laboratório parece quase ter regredido em relação ao ano de 1983 no qual o filme foi lançado. Vai entender...

Também é curioso que o governo secreto dos EUA tenha conhecimento, como fato, de que a "última" mulher fértil do mundo estaria escondida em algum lugar nas ruínas de Nova York. O filme nem sequer tenta explicar de que forma estas autoridades teriam chegado em tal conclusão. Também não fica claro como é que essa gente escondida no Alaska poderia saber do paradeiro de uma moça escondida em Nova York, especialmente quando se trata de (WARNING: SPOILER ALERT!!!) ... uma jovem que está sendo mantida em coma induzido pelo pai há vinte anos! Ora, como é que alguém poderia saber da existência dela? Pior: como é que alguém poderia saber se ela é fértil ou não, se passou a vida inteira escondida pelo pai e em coma?


Pois é: esse filme é doido!

Para realizar a sua missão (e para a premissa ficar pelo menos um pouquinho diferente de "Fuga de Nova York"), o herói dessa vez não será infiltrado sozinho. Ao contrário de Snake Plissken, que trabalha sozinho, o seu gêmeo italiano Parsifal vai acompanhado de outros dois soldados. Um deles tem uma mão robótica e o outro usa um tapa-olho. É, um tapa-olho, parecido com o do Snake. Aparentemente, os realizadores de "2019" acharam que seria uma imitação muito escancarada colocar um tapa-olho em Parsifal, e então resolveram caracterizar o protagonista com uma bandana na testa (para deixar o cabelo mais estiloso) e passaram o tapa-olho para o colega de Parsifal. Fantástico!

O curioso sobre "2019" é que, ao contrário do que se poderia pensar em um primeiro momento, não é o orçamento apertado que estraga o filme. De forma alguma. Apesar de ser claramente um filme B com atmosfera trash, a produção foi feita com visível e notável esmero. Tirando alguns efeitos especiais de maquetes que simplesmente não restaram convincentes, de resto a produção do filme realiza a proeza de criar uma ambientação adequada de mundo pós-apocalíptico e que se mostra à altura das ambições narrativas do filme. O diretor Sergio Martino e sua equipe, aqui, fizeram muito com muito pouco.


O que realmente detona "2019" (e certamente está na raiz do seu fracasso comercial e posterior desaparecimento) é o roteiro rocambolesco e risível, que precisaria ter passado por pelo menos mais uma dúzia de revisões críticas antes do início da filmagem. É tanta coisa errada que fica até difícil de listar tudo. O espectador é apresentado a temáticas que simplesmente não se desenvolvem na tela, como a ideia de que o amor redime uma vida em meio à desesperança (um tema que é trabalhado apenas no final do filme, em dois minutos, e logo desaparece). O espectador é apresentado ao líder dos Euraks, em um dos momentos de melhor atuação do filme, apenas para descobrir posteriormente que ele só voltará em mais uma pequena cena posterior e que jamais dividirá a tela com o protagonista Parsifal. O espectador é apresentado, nos últimos minutos do filme, ao problema que Parsifal tem com ciborgues - mesmo com um que passou o filme inteiro salvando a pele do herói. Por que um ciborgue é necessariamente algo ruim, ainda que esteja lutando fielmente pela causa do mocinho? Só Deus sabe!

Enfim, o filme oferece uma infinidade de pontos de partida que não levam a lugar algum e que não são devidamente desenvolvidos, resultando numa salada mista de humanidade estéril pós-apocalipse, ciborgues, naves espaciais, homens-macaco (é, é isso aí mesmo, não vou nem começar...) e por aí vai. Para não falar de algumas opções estéticas esdrúxulas. Exemplifico: no mundo de "2019", praticamente todo mundo é feio, sujo, fedido e coberto de feridas e deformidades oriundas da radiação. Todo mundo - menos o galã Parsifal, a belíssima gata loira pela qual ele se apaixona ao longo da trama e a vilã Ania, intepretada por Anna Kanakis, modelo que foi a Miss Itália de 1977. O constraste entre a lindeza limpinha e cheirosa deste trio de beldades com o look sujismundo-encardido-mutante de todo o resto do elenco é uma das coisas mais cômicas do filme.


Um roteiro melhor, com muitas revisões, aliadas a um trabalho de atuação melhor, poderiam ter feito de "2019" um clássico europeu do cinema de ficção-científica. O resultado, no entanto, acaba sendo um clone de "Fuga de Nova York" em versão chá de cogumelo, com uma trama que parece ter sido concebida depois da mistura de um coquetel de drogas.

Em resumo: o filme é recomendável? Depende. Se você se enquadra naquilo que poderíamos chamar de "espectador médio", recomendo não ir atrás deste filme. Você ficará com a sensação de que colocou duas horas de sua vida no lixo. Mas, para quem é fã de filmes de horror e ficção-científica, e sobretudo para quem é fã de "Fuga de Nova York", este pseudo-clone italiano é absolutamente imperdível. Para este público, a diversão é garantida: tem sci-fi, tem aquela atmosfera de trash com filme B, tem muito sangue e splatter, tem efeitos "especiais" de rolar de rir, tem o "bad boy" Parsifal apanhando e sendo capturado sem parar (aliás, por que um cara que perde quase todas é apontado como "a última esperança" da humanidade)?


Claro, é preciso um pouco de estômago e de mente aberta também, na hora de encarar este filme. Afinal, não é todo dia que a gente vê uma moça em coma sendo estuprada por um homem-macaco que quer se reproduzir (graças a Deus, essa piração asquerosa gratuita e desnecessária não é exibida na tela, ficando apenas sugerida entre uma cena e outra). Vai entender a cabeça destes roteiristas que acharam que homens macaco, ciborgues, naves espaciais, um governo secreto no Alaska e um estupro de mulher em coma seriam elementos "indispensáveis" para a trama...


Louvável pelo tanto que constrói em cima de um orçamento tão pobre, admirável pelas suas pretensões e ambições e histericamente risível pela quantidade de absurdos narrativos e falta de noção e bom-senso dos roteiristas, "2019 - Depois da Queda de Nova York", vale uma conferida. Um pouco pela ambientação e atmosfera, um pouco pela ação, mas sobretudo pelos repetidos momentos de canastrice, exagero e nonsense absurdo, que fazem tudo resvalar para o farsesco e render boas risadas.




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"Blade Runner 2049" é competente, esforçado e esteticamente impecável, mas infelizmente passa no teste Voight-Kampff - e isso é um (grande) problema!

 

[Observação: contém SPOILERS!]

"Blade Runner", o clássico do cinema de ficção-científica lançado em 1982, lidava com uma série de questões filosóficas, religiosas, sociais e políticas. O filme transportava para as telas uma das mais permanentes indagações do escritor Philip K. Dick (autor de "Do Androids Dream of Electric Sheep?", o livro que inspirou o filme), qual seja: o que significa ser humano?

Na película de 1982, esta questão é ilustrada por meio da justaposição entre seres humanos e os replicantes, organismos sintéticos virtualmente indistinguíveis das pessoas normais. De forma paradoxal, mas igualmente brilhante, a única forma de distinguir os replicantes dos humanos, no universo ficcional de "Blade Runner", era através de um teste de empatia e de demonstração de emoções humanas. Isso porque os replicantes eram incapazes de emular a apatia, a indiferença, o niilismo, a frieza e a falta de empatia das pessoas "de carne em osso" em geral. Submetidos ao referido teste ("nós o chamamos de teste Voight-Kampff, para resumir", nas palavras do personagem Rick Deckard), os replicantes acabavam se revelando não-humanos justamente pelo seu "excesso" de sentimentos humanos. "Passar" no teste implicava em não se abalar emocionalmente. "Falhar" no teste significava demonstrar sentimentos, emoções e humanidade - algo impensável para os humanos adultos do universo do filme.

Em "Blade Runner 2049", a erosão ou desaparecimento dos sentimentos humanos parece ser menos um leitmotif da trama do que propriamente uma característica marcante da própria produção em si. Interessante e indiscutivelmente bem executado sob diversos aspectos, o calcanhar de Aquiles desta tardia continuação reside justamente na sua frieza, distanciamento e desapego emocional. Reconheço que estas características talvez sejam excelentes como forma de traduzir o espírito do nosso mundo real na presente década, mas funcionam muito mal dentro do universo ficcional inaugurado pelo filme de 1982, no qual a distopia, a desintegração social e as sombras do mau uso da tecnologia coexistem com a (sempre difícil) preservação das qualidades redentoras do perseverante espírito humano. 


"Blade Runner" apresentava uma delicada mistura de razão e emoção, lógica e paixão, inteligência e amor. Transitava livremente entre o deprimente-distópico e o romântico. Sua continuação, seja por incompreensão da obra original ou pela vontade deliberada de seus realizadores, passa longe dessa delicada receita. O resultado é um filme visualmente muito bonito e, em vários momentos, intelectualmente provocativo - mas distante, frio, plano como uma tela de monitor e desprovido de alma.

Esta atmosfera de assepsia emocional permeia "Blade Runner 2049" inteiramente, do todo às partes, da fotografia à música. A trilha sonora, assinada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, apesar de ter seus bons momentos, soa como uma versão diluída, derivativa e anêmica da trilha sonora original de "Blade Runner" de Vangelis. Em sua maior parte, a música é "presa", contida e distante, emocionalmente sedada, em contraste com a arrebatadora obra-prima de Vangelis. Deixo registrada a minha dúvida: se o objetivo era uma trilha "que soasse como Vangelis", por que não trazer de volta a maravilhosa e icônica trilha sonora do filme original? E, se o objetivo era partir para algo novo, por que trazer Hans Zimmer para assinar uma obra musical derivativa que soa como a trilha de Vangelis depois de diluída em um barril de água da torneira?

A mudez emocional de "Blade Runner 2049" pode ser identificada até nos detalhes. Enquanto que, no filme de 1982, uma das cenas mais emocionalmente arrebatadoras era protagonizada pela personagem de Sean Young tocando piano no apartamento de Deckard, em "Blade Runner 2049" a figura do piano reaparece meramente na condição de instrumento quebrado, incapaz de emitir quaisquer sons. Parece uma metáfora comparativa dos dois filmes.


Toda esta frieza narrativa, é claro, cobra um preço. Perto do final do filme, o personagem Deckard é colocado, em duas cenas distintas, diante de duas figuras amadas do seu passado. Em uma continuação que tivesse a competência de reproduzir de forma minimamente adequada a sensibilidade do filme original, ambas as cenas levariam o público (sobretudo os fãs do filme original) às lágrimas. Mas não é o que acontece. Quando "Blade Runner 2049" finalmente resolve investir algumas fichas em sentimentos, já é muito tarde para o espectador, que não é envolvido com os personagens em momento algum e se conecta com a história de forma tão apática e indiferente quanto as feições de Harrison Ford ao longo do filme. A sensação que dá é que os realizadores de "Blade Runner 2049" confundiram o correto objetivo de mostrar na tela um mundo ficcional dessensibilizado (como não poderia deixar de ser, em se tratando de "Blade Runner") com a necessidade de contar a história com um ar de frieza, quase indiferença, criando uma narrativa emocionalmente reprimida. Acidental ou intencional, o resultado neste particular é um evidente equívoco, incapaz de dialogar com a sutileza e delicadeza da obra original.


Infelizmente, não é apenas neste particular que "Blade Runner 2049" realiza a alquimia inversa de transmutar ouro em chumbo. A substituição dos replicantes Nexus 6 pela apenas-agora-revelada linha Nexus 8 se revela um péssimo recurso narrativo, obviamente criado com o único e exclusivo propósito de explicar a existência de replicantes envelhecidos (como, muito possivelmente, vem a ser o caso do próprio personagem Rick Deckard - agora interpretado por um Harrison Ford de 75 anos de idade). Os "Nexus 8" são idênticos aos "Nexus 6" em tudo, exceto pelo fato de que não possuem mais um tempo de vida restrito e pré-estipulado.

Evidentemente, isso joga na privada toda a riquíssima filosofia existencial característica do primeiro filme. Não à toa, a questão da mortalidade - central no primeiro filme - é agora substituída pela questão da liberdade. Trata-se de um tema que, no filme original, era importante, porém secundário. No filme de 1982, quando o grupo de replicantes liderados por Roy Batty (Rutger Hauer) se amotina e se vê livre dos grilhões da escravidão, eles não fogem para algum lugar distante para desfrutar de sua preciosa liberdade: eles vêm para a Terra, sabendo que irão enfrentar os maiores perigos imagináveis, na esperança de encontrar seu criador (o Deus da bioengenharia, Dr. Eldon Tyrell) em busca de longevidade. A luta dos replicantes Nexus 6 era mais do que uma mera luta contra a tirania da escravidão: era uma luta contra a tirania da mortalidade, fechando por completo o círculo que em última instância torna os replicantes tão inteiramente (e intensamente) humanos quanto qualquer um de nós


Ao investir sua narrativa nos "novos" Nexus 8, "Blade Runner 2049" não tem alternativa senão descartar todo o existencialismo e a filosofia do filme original, concentrando seu argumento no replicante-enquanto-problema-político-e-social. Em outras palavras: ao final das contas, o replicante Nexus 8 é um verdadeiro minus simbólico em relação ao replicante Nexus 6 do filme original. Ele mantém as implicações e questionamentos de natureza social e política, que já eram inerentes ao Nexus 6, mas perde por completo a dimensão existencial. Depois de compreender isso, é impossível se admirar com o fato de que o resultado geral de "Blade Runner 2049" é naturalmente muito menos interessante, provocativo e evocativo do que a consagrada obra-prima original.


A consequência direta desta perda da dimensão existencial-filosófico-religiosa em prol de um argumento centrado no aspecto político-social é muito clara. Na segunda metade do filme, fica evidente que "Blade Runner 2049" pretende empurrar este universo ficcional na direção de uma "planetadosmacacoslização" da franquia, só que com replicantes no lugar dos macacos inteligentes criados pela humanidade.

Se os lucros de bilheteria tornarem "Blade Runner 2049" um sucesso comercial, podemos esperar para os próximos anos uma série de sequências na melhor "vibe" do tipo "A Rebelião dos Replicantes", "A Batalha pelo Planeta dos Replicantes", "A Conquista do Planeta dos Replicantes" e por aí vai. Nada de novo, vale dizer. A perceptível influência da atual (e comercialmente muito bem sucedida) trilogia remake "Planeta dos Macacos", no argumento de "Blade Runner 2049", não deixa de ser uma amarga ironia. Vale lembrar que "O Planeta dos Macacos" (a obra prima original de 1968) foi a primeira pérola do cinema de ficção-científica grotescamente arruinada e desfigurada por uma sucessão de continuações oportunistas de má qualidade. 


Outra característica interessante de "Blade Runner 2049" é que o filme parece funcionar, simultaneamente, como duas produções distintas. Poderíamos chamar a primeira delas de "Blade Runner II - O Que Aconteceu com Deckard e Rachel?" (ou quem sabe "Blade Runner II - Procura-se Deckard Desesperadamente!"). Essa dimensão do filme se mostra obsessivamente preocupada não apenas em reintroduzir nas telonas o universo ficcional da película original, mas sobretudo em funcionar como uma legítima e literal CONTINUAÇÃO do clássico de 1982. À toda evidência, o lado "Blade Runner II" do filme é o que menos funciona. Este aspecto do filme tenta se legitimar na base de sucessivas escolhas artisticamente pobres - desde a desnecessária presença de Harrison Ford no filme (vale dizer: a passeio, mal justificando sua inclusão na história e marcando presença quase na forma descompromissada de uma aparição "cameo") até a adoção do forçado recurso narrativo de transformar a prole de Deckard e Rachel no novo Messias do povo replicante, passando pela injustificável e imediatamente esquecível "ressurreição" de Rachel - uma desnecessária e gratuita exibição de poder de computação gráfica, estéril e inútil para o desenvolvimento da história. 

Mas não, nem tudo são equívocos em "Blade Runner 2049". Há uma segunda dimensão do filme que funciona muito bem. Poderíamos chamá-la de "Blade Runner Remake" ou "Blade Runner Updated". Esta dimensão do filme abrange tudo o que é novo e original na reimaginação deste universo ficcional, e este aspecto da produção se revela cheio de boas ideias. O relacionamento afetivo entre o Blade Runner replicante K e a inteligência artificial Joi, melhor desenvolvido, poderia ter rendido um filme maravilhoso. O ambicioso e megalomaníaco gênio-monstro Niander Wallace é um personagem fantástico, trazido à vida de forma competente por Jared Leto, e suplica maior tempo de tela. Os dilemas de K, replicante consciente de sua natureza e lutando para apaziguar o seu conflito interno de exterminador de replicantes, constitui uma forma nova e interessante de trabalhar algumas das questões do primeiro filme. Seja pela fotografia maravilhosa, seja pela competência em reapresentar o mundo de Blade Runner para uma nova geração depois de 35 anos, esta dimensão criativa, original e audaciosa de "Blade Runner 2049" reúne dentro de si tudo aquilo que faz o filme valer a pena. Infelizmente, o lado "Blade Runner Updated" precisa dividir espaço com o sofrível lado "Blade Runner II", e o resultado desta problemática fusão compromete severamente o resultado artístico final.


Em síntese, "Blade Runner 2049" é (por seus próprios méritos e sem necessidade de comparações injustas com a obra-prima original) um filme de ficção-científica muito acima da média e que atualiza com sucesso o universo "Blade Runner" para o público de 2017. Infelizmente, seu compromisso de funcionar como "continuação direta" do filme de 1982 o leva a comprometer severamente as suas potencialidades criativas e o desenvolvimento de seu próprio argumento. Pior: suas escolhas sofríveis sinalizam um futuro previsível e banal para as histórias de filmes futuros que venham na esteira do sucesso de "Blade Runner 2049". Resta torcer para que eventuais continuações tenham a coragem de ousar mais, em termos criativos, sem transformar Blade Runner em um derivado aborrecido de "O Planeta dos Macacos", nem em uma "franquia" propriamente dita. Franquias são boas para lanchonetes, não para grandes obras de arte - coisa que o tempo mostrou, para além de qualquer possibilidade de dúvida razoável, que o "Blade Runner" original de fato é.    


quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Caveira resenha: "Muck" (2015)

A ideia básica do terror "Muck" (2015), primeiro filme do diretor Steve Wolsh, até que é interessante: um "slasher movie" que começa com uma história pela metade, com um grupo de amigos já em sérios apuros e esfarrapados, em busca de socorro e que acabam se deparando com uma situação ainda pior ao longo da trama - tudo isso desembocando em um final abrupto e inconclusivo.

Aparentemente, a ideia de Wolsh é fazer uma trilogia, sendo que este primeiro filme seria "o meio" da história, cujo começo e conclusão só serão devidamente esclarecidos nos filmes posteriores. Excêntrico, talvez, mas até aí tudo bem. O problema é que todas as boas intenções se perdem com a trama ridícula, as atuações sofríveis e os diálogos risíveis. 

A canastrice é tão generalizada que se torna virtualmente impossível identificar se Wolsh quis mesmo fazer um filme de terror ou apenas uma paródia de filmes de terror. O resultado final ficou num meio-termo: é um terror ruim e uma comédia ruim. Depois de ver "Muck" até o fim, fiquei com a impressão de que Wolsh quis criar uma espécie de "cult movie" meio Robert Rodriguez, meio Tarantino. Se a ideia era essa, então - ó meu bom Deus - se trata de um sério caso de muita pretensão para pouco talento.

Mas o que torna o filme excessivamente bobo é, sem dúvida, a nudez gratuita de quase todo o elenco feminino. Por favor, não me entendam mal: não se trata de moralismo da minha parte. Tampouco desconheço o fato de que uma certa dose de erotismo sempre esteve ligada à arte de horror, desde muito antes do surgimento do cinema. O problema é que, em "Muck", a proliferação gratuita de seios e bundas é, além de forçada, simplesmente elevada à condição de coisa mais importante do filme ao longo de toda a "trama".

A obsessão de Wolsh com as cenas de nudez desvinculadas da narrativa faz surgir a dúvida: por que ele não dirigiu um "soft porn" ao invés de um filme de terror? O espectador fica com a impressão de que o filme foi dirigido por um menino pré-adolescente em combustão hormonal, do tipo que nunca viu uma mulher nua na vida. É constrangedor e patético - mais ou menos o que se esperaria de um filme de terror dirigido por Beavis e Butt-Head. 

Se a intenção era fazer um terror carregado de erotismo, então novamente o resultado denuncia a falta de maturidade dos realizadores. Erotismo e nudez gratuita são duas coisas completamente diferentes. O clássico do horror "The Hunger" ("Fome de Viver", de 1983) é dez mil vezes mais erótico do que "Muck". A diferença, aqui, é entre erotismo e onanismo.

Pontos positivos: alguns poucos momentos de humor que efetivamente funcionam; as cenas de luta bem dirigidas; o uso de efeitos práticos no lugar de computação gráfica fajuta; a qualidade de imagem e fotografia e a presença no elenco do ídolo Kane Hodder (amado pelos fãs de filmes de terror por ter interpretado Jason quatro vezes no cinema).

Vale à pena ver? Depende. Se você não é fã do gênero, passe longe. Se é fã, ainda assim só recomendo em caso de falta de opção melhor. Agora, se você curte o gênero e está reunido com uma turma de amigos bebendo cerveja a noite inteira, este é o tipo de filme ideal para ver de galera e rolar de tanto rir com os momentos de humor involuntário da produção. Para quem estiver disposto a deixar o senso crítico de lado por um par de horas, no conjunto "Muck" até oferece um pouquinho de entretenimento barato e diversão - mas não muito.