quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"Blade Runner 2049" é competente, esforçado e esteticamente impecável, mas infelizmente passa no teste Voight-Kampff - e isso é um (grande) problema!

 

[Observação: contém SPOILERS!]

"Blade Runner", o clássico do cinema de ficção-científica lançado em 1982, lidava com uma série de questões filosóficas, religiosas, sociais e políticas. O filme transportava para as telas uma das mais permanentes indagações do escritor Philip K. Dick (autor de "Do Androids Dream of Electric Sheep?", o livro que inspirou o filme), qual seja: o que significa ser humano?

Na película de 1982, esta questão é ilustrada por meio da justaposição entre seres humanos e os replicantes, organismos sintéticos virtualmente indistinguíveis das pessoas normais. De forma paradoxal, mas igualmente brilhante, a única forma de distinguir os replicantes dos humanos, no universo ficcional de "Blade Runner", era através de um teste de empatia e de demonstração de emoções humanas. Isso porque os replicantes eram incapazes de emular a apatia, a indiferença, o niilismo, a frieza e a falta de empatia das pessoas "de carne em osso" em geral. Submetidos ao referido teste ("nós o chamamos de teste Voight-Kampff, para resumir", nas palavras do personagem Rick Deckard), os replicantes acabavam se revelando não-humanos justamente pelo seu "excesso" de sentimentos humanos. "Passar" no teste implicava em não se abalar emocionalmente. "Falhar" no teste significava demonstrar sentimentos, emoções e humanidade - algo impensável para os humanos adultos do universo do filme.

Em "Blade Runner 2049", a erosão ou desaparecimento dos sentimentos humanos parece ser menos um leitmotif da trama do que propriamente uma característica marcante da própria produção em si. Interessante e indiscutivelmente bem executado sob diversos aspectos, o calcanhar de Aquiles desta tardia continuação reside justamente na sua frieza, distanciamento e desapego emocional. Reconheço que estas características talvez sejam excelentes como forma de traduzir o espírito do nosso mundo real na presente década, mas funcionam muito mal dentro do universo ficcional inaugurado pelo filme de 1982, no qual a distopia, a desintegração social e as sombras do mau uso da tecnologia coexistem com a (sempre difícil) preservação das qualidades redentoras do perseverante espírito humano. 


"Blade Runner" apresentava uma delicada mistura de razão e emoção, lógica e paixão, inteligência e amor. Transitava livremente entre o deprimente-distópico e o romântico. Sua continuação, seja por incompreensão da obra original ou pela vontade deliberada de seus realizadores, passa longe dessa delicada receita. O resultado é um filme visualmente muito bonito e, em vários momentos, intelectualmente provocativo - mas distante, frio, plano como uma tela de monitor e desprovido de alma.

Esta atmosfera de assepsia emocional permeia "Blade Runner 2049" inteiramente, do todo às partes, da fotografia à música. A trilha sonora, assinada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, apesar de ter seus bons momentos, soa como uma versão diluída, derivativa e anêmica da trilha sonora original de "Blade Runner" de Vangelis. Em sua maior parte, a música é "presa", contida e distante, emocionalmente sedada, em contraste com a arrebatadora obra-prima de Vangelis. Deixo registrada a minha dúvida: se o objetivo era uma trilha "que soasse como Vangelis", por que não trazer de volta a maravilhosa e icônica trilha sonora do filme original? E, se o objetivo era partir para algo novo, por que trazer Hans Zimmer para assinar uma obra musical derivativa que soa como a trilha de Vangelis depois de diluída em um barril de água da torneira?

A mudez emocional de "Blade Runner 2049" pode ser identificada até nos detalhes. Enquanto que, no filme de 1982, uma das cenas mais emocionalmente arrebatadoras era protagonizada pela personagem de Sean Young tocando piano no apartamento de Deckard, em "Blade Runner 2049" a figura do piano reaparece meramente na condição de instrumento quebrado, incapaz de emitir quaisquer sons. Parece uma metáfora comparativa dos dois filmes.


Toda esta frieza narrativa, é claro, cobra um preço. Perto do final do filme, o personagem Deckard é colocado, em duas cenas distintas, diante de duas figuras amadas do seu passado. Em uma continuação que tivesse a competência de reproduzir de forma minimamente adequada a sensibilidade do filme original, ambas as cenas levariam o público (sobretudo os fãs do filme original) às lágrimas. Mas não é o que acontece. Quando "Blade Runner 2049" finalmente resolve investir algumas fichas em sentimentos, já é muito tarde para o espectador, que não é envolvido com os personagens em momento algum e se conecta com a história de forma tão apática e indiferente quanto as feições de Harrison Ford ao longo do filme. A sensação que dá é que os realizadores de "Blade Runner 2049" confundiram o correto objetivo de mostrar na tela um mundo ficcional dessensibilizado (como não poderia deixar de ser, em se tratando de "Blade Runner") com a necessidade de contar a história com um ar de frieza, quase indiferença, criando uma narrativa emocionalmente reprimida. Acidental ou intencional, o resultado neste particular é um evidente equívoco, incapaz de dialogar com a sutileza e delicadeza da obra original.


Infelizmente, não é apenas neste particular que "Blade Runner 2049" realiza a alquimia inversa de transmutar ouro em chumbo. A substituição dos replicantes Nexus 6 pela apenas-agora-revelada linha Nexus 8 se revela um péssimo recurso narrativo, obviamente criado com o único e exclusivo propósito de explicar a existência de replicantes envelhecidos (como, muito possivelmente, vem a ser o caso do próprio personagem Rick Deckard - agora interpretado por um Harrison Ford de 75 anos de idade). Os "Nexus 8" são idênticos aos "Nexus 6" em tudo, exceto pelo fato de que não possuem mais um tempo de vida restrito e pré-estipulado.

Evidentemente, isso joga na privada toda a riquíssima filosofia existencial característica do primeiro filme. Não à toa, a questão da mortalidade - central no primeiro filme - é agora substituída pela questão da liberdade. Trata-se de um tema que, no filme original, era importante, porém secundário. No filme de 1982, quando o grupo de replicantes liderados por Roy Batty (Rutger Hauer) se amotina e se vê livre dos grilhões da escravidão, eles não fogem para algum lugar distante para desfrutar de sua preciosa liberdade: eles vêm para a Terra, sabendo que irão enfrentar os maiores perigos imagináveis, na esperança de encontrar seu criador (o Deus da bioengenharia, Dr. Eldon Tyrell) em busca de longevidade. A luta dos replicantes Nexus 6 era mais do que uma mera luta contra a tirania da escravidão: era uma luta contra a tirania da mortalidade, fechando por completo o círculo que em última instância torna os replicantes tão inteiramente (e intensamente) humanos quanto qualquer um de nós


Ao investir sua narrativa nos "novos" Nexus 8, "Blade Runner 2049" não tem alternativa senão descartar todo o existencialismo e a filosofia do filme original, concentrando seu argumento no replicante-enquanto-problema-político-e-social. Em outras palavras: ao final das contas, o replicante Nexus 8 é um verdadeiro minus simbólico em relação ao replicante Nexus 6 do filme original. Ele mantém as implicações e questionamentos de natureza social e política, que já eram inerentes ao Nexus 6, mas perde por completo a dimensão existencial. Depois de compreender isso, é impossível se admirar com o fato de que o resultado geral de "Blade Runner 2049" é naturalmente muito menos interessante, provocativo e evocativo do que a consagrada obra-prima original.


A consequência direta desta perda da dimensão existencial-filosófico-religiosa em prol de um argumento centrado no aspecto político-social é muito clara. Na segunda metade do filme, fica evidente que "Blade Runner 2049" pretende empurrar este universo ficcional na direção de uma "planetadosmacacoslização" da franquia, só que com replicantes no lugar dos macacos inteligentes criados pela humanidade.

Se os lucros de bilheteria tornarem "Blade Runner 2049" um sucesso comercial, podemos esperar para os próximos anos uma série de sequências na melhor "vibe" do tipo "A Rebelião dos Replicantes", "A Batalha pelo Planeta dos Replicantes", "A Conquista do Planeta dos Replicantes" e por aí vai. Nada de novo, vale dizer. A perceptível influência da atual (e comercialmente muito bem sucedida) trilogia remake "Planeta dos Macacos", no argumento de "Blade Runner 2049", não deixa de ser uma amarga ironia. Vale lembrar que "O Planeta dos Macacos" (a obra prima original de 1968) foi a primeira pérola do cinema de ficção-científica grotescamente arruinada e desfigurada por uma sucessão de continuações oportunistas de má qualidade. 


Outra característica interessante de "Blade Runner 2049" é que o filme parece funcionar, simultaneamente, como duas produções distintas. Poderíamos chamar a primeira delas de "Blade Runner II - O Que Aconteceu com Deckard e Rachel?" (ou quem sabe "Blade Runner II - Procura-se Deckard Desesperadamente!"). Essa dimensão do filme se mostra obsessivamente preocupada não apenas em reintroduzir nas telonas o universo ficcional da película original, mas sobretudo em funcionar como uma legítima e literal CONTINUAÇÃO do clássico de 1982. À toda evidência, o lado "Blade Runner II" do filme é o que menos funciona. Este aspecto do filme tenta se legitimar na base de sucessivas escolhas artisticamente pobres - desde a desnecessária presença de Harrison Ford no filme (vale dizer: a passeio, mal justificando sua inclusão na história e marcando presença quase na forma descompromissada de uma aparição "cameo") até a adoção do forçado recurso narrativo de transformar a prole de Deckard e Rachel no novo Messias do povo replicante, passando pela injustificável e imediatamente esquecível "ressurreição" de Rachel - uma desnecessária e gratuita exibição de poder de computação gráfica, estéril e inútil para o desenvolvimento da história. 

Mas não, nem tudo são equívocos em "Blade Runner 2049". Há uma segunda dimensão do filme que funciona muito bem. Poderíamos chamá-la de "Blade Runner Remake" ou "Blade Runner Updated". Esta dimensão do filme abrange tudo o que é novo e original na reimaginação deste universo ficcional, e este aspecto da produção se revela cheio de boas ideias. O relacionamento afetivo entre o Blade Runner replicante K e a inteligência artificial Joi, melhor desenvolvido, poderia ter rendido um filme maravilhoso. O ambicioso e megalomaníaco gênio-monstro Niander Wallace é um personagem fantástico, trazido à vida de forma competente por Jared Leto, e suplica maior tempo de tela. Os dilemas de K, replicante consciente de sua natureza e lutando para apaziguar o seu conflito interno de exterminador de replicantes, constitui uma forma nova e interessante de trabalhar algumas das questões do primeiro filme. Seja pela fotografia maravilhosa, seja pela competência em reapresentar o mundo de Blade Runner para uma nova geração depois de 35 anos, esta dimensão criativa, original e audaciosa de "Blade Runner 2049" reúne dentro de si tudo aquilo que faz o filme valer a pena. Infelizmente, o lado "Blade Runner Updated" precisa dividir espaço com o sofrível lado "Blade Runner II", e o resultado desta problemática fusão compromete severamente o resultado artístico final.


Em síntese, "Blade Runner 2049" é (por seus próprios méritos e sem necessidade de comparações injustas com a obra-prima original) um filme de ficção-científica muito acima da média e que atualiza com sucesso o universo "Blade Runner" para o público de 2017. Infelizmente, seu compromisso de funcionar como "continuação direta" do filme de 1982 o leva a comprometer severamente as suas potencialidades criativas e o desenvolvimento de seu próprio argumento. Pior: suas escolhas sofríveis sinalizam um futuro previsível e banal para as histórias de filmes futuros que venham na esteira do sucesso de "Blade Runner 2049". Resta torcer para que eventuais continuações tenham a coragem de ousar mais, em termos criativos, sem transformar Blade Runner em um derivado aborrecido de "O Planeta dos Macacos", nem em uma "franquia" propriamente dita. Franquias são boas para lanchonetes, não para grandes obras de arte - coisa que o tempo mostrou, para além de qualquer possibilidade de dúvida razoável, que o "Blade Runner" original de fato é.    


quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Caveira resenha: "Muck" (2015)

A ideia básica do terror "Muck" (2015), primeiro filme do diretor Steve Wolsh, até que é interessante: um "slasher movie" que começa com uma história pela metade, com um grupo de amigos já em sérios apuros e esfarrapados, em busca de socorro e que acabam se deparando com uma situação ainda pior ao longo da trama - tudo isso desembocando em um final abrupto e inconclusivo.

Aparentemente, a ideia de Wolsh é fazer uma trilogia, sendo que este primeiro filme seria "o meio" da história, cujo começo e conclusão só serão devidamente esclarecidos nos filmes posteriores. Excêntrico, talvez, mas até aí tudo bem. O problema é que todas as boas intenções se perdem com a trama ridícula, as atuações sofríveis e os diálogos risíveis. 

A canastrice é tão generalizada que se torna virtualmente impossível identificar se Wolsh quis mesmo fazer um filme de terror ou apenas uma paródia de filmes de terror. O resultado final ficou num meio-termo: é um terror ruim e uma comédia ruim. Depois de ver "Muck" até o fim, fiquei com a impressão de que Wolsh quis criar uma espécie de "cult movie" meio Robert Rodriguez, meio Tarantino. Se a ideia era essa, então - ó meu bom Deus - se trata de um sério caso de muita pretensão para pouco talento.

Mas o que torna o filme excessivamente bobo é, sem dúvida, a nudez gratuita de quase todo o elenco feminino. Por favor, não me entendam mal: não se trata de moralismo da minha parte. Tampouco desconheço o fato de que uma certa dose de erotismo sempre esteve ligada à arte de horror, desde muito antes do surgimento do cinema. O problema é que, em "Muck", a proliferação gratuita de seios e bundas é, além de forçada, simplesmente elevada à condição de coisa mais importante do filme ao longo de toda a "trama".

A obsessão de Wolsh com as cenas de nudez desvinculadas da narrativa faz surgir a dúvida: por que ele não dirigiu um "soft porn" ao invés de um filme de terror? O espectador fica com a impressão de que o filme foi dirigido por um menino pré-adolescente em combustão hormonal, do tipo que nunca viu uma mulher nua na vida. É constrangedor e patético - mais ou menos o que se esperaria de um filme de terror dirigido por Beavis e Butt-Head. 

Se a intenção era fazer um terror carregado de erotismo, então novamente o resultado denuncia a falta de maturidade dos realizadores. Erotismo e nudez gratuita são duas coisas completamente diferentes. O clássico do horror "The Hunger" ("Fome de Viver", de 1983) é dez mil vezes mais erótico do que "Muck". A diferença, aqui, é entre erotismo e onanismo.

Pontos positivos: alguns poucos momentos de humor que efetivamente funcionam; as cenas de luta bem dirigidas; o uso de efeitos práticos no lugar de computação gráfica fajuta; a qualidade de imagem e fotografia e a presença no elenco do ídolo Kane Hodder (amado pelos fãs de filmes de terror por ter interpretado Jason quatro vezes no cinema).

Vale à pena ver? Depende. Se você não é fã do gênero, passe longe. Se é fã, ainda assim só recomendo em caso de falta de opção melhor. Agora, se você curte o gênero e está reunido com uma turma de amigos bebendo cerveja a noite inteira, este é o tipo de filme ideal para ver de galera e rolar de tanto rir com os momentos de humor involuntário da produção. Para quem estiver disposto a deixar o senso crítico de lado por um par de horas, no conjunto "Muck" até oferece um pouquinho de entretenimento barato e diversão - mas não muito.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Caveira resenha: "Mr. Mercedes" (2014), de Stephen King


Esqueça o horror sobrenatural, terreno que King já explorou com maestria tantas vezes ao longo das últimas cinco décadas. Mais do que qualquer outra coisa, "Mr. Mercedes" é uma história de detetive e seus personagens são construídos com os dois pés fincados no chão de um realismo urbano carregado de trivialidade.

Mas não espere uma história de detetive do tipo Agatha Christie, nem algo parecido com um ambiente de filme noir. Neste gênero literário, o que frequentemente faz o leitor devorar o livro é o mistério da identidade do criminoso, a ânsia do leitor em saber a resposta para a singela pergunta: "quem"? O livro de King não poderia passar mais distante desta fórmula tradicional. O autor não apenas revela a identidade do vilão logo no começo da história (para ser sincero, você pode saber o nome do assassino só de ler a orelha do livro!) como boa parte da narrativa se desenvolve pela perspectiva deste cruel antagonista. "Mr. Mercedes" é um romance de detetive no qual o mistério sai de cena para dar lugar a um frenético jogo de gato e rato diante do qual a expectativa do leitor é saber se os "mocinhos" conseguirão deter o criminoso a tempo de impedí-lo de levar adiante seus novos projetos macabros.

Se o vilão da trama foge daquilo que é convencional para o gênero, o mesmo vale para o protagonista. O ex-policial  Bill Hodges é um personagem maravilhosamente verossímil e que exemplifica, pela milésima vez, o conhecido e notório talento de King para criar personagens realistas e carismáticos. Sexagenário, obeso, solitário e aposentado, Hodges é antítese do detetive charmoso, viril e seguro de si que frequentemente identificamos como estereótipo do "detetive" em histórias deste tipo. No início da trama, Hodges não é nada mais do que um gordo velho que passa suas tardes vendo ridículos programas de auditório na televisão. Ele encarna, de certa forma, uma das figuras mais apreciadas por King: a do herói atípico. Não é a primeira vez que King coloca um idoso em uma luta contra forças do mal (veja, a título de exemplo, o ótimo "Insônia" de 1994), mas isso não prejudica a originalidade com a qual ele constrói uma trama detetivesca na qual o herói e o vilão dividem o protagonismo da narrativa de forma intercalada.

Alternando momentos bem humorados com outros de horror psicológico sutil porém perturbador, "Mr. Mercedes" é um thriller que deixa fantasmas, zumbis e criaturas extradimensionais de lado e aposta em um horror que é incômodo sobretudo porque é realista e verossímil. A cabeça do vilão da trama poderia ser a de um colega de trabalho ou  do vizinho que mora aí do seu lado - e talvez seja mesmo!

Aparentemente, o próprio Stephen King sucumbiu ao improvável charme sedutor do sedentário detetive aposentado Hodges, na medida em que o autor transformou o personagem no protagonista de mais dois livros que dão sequência a "Mr. Mercedes": "Finders Keepers" (2015) e "End of Watch" (2016). E pensar que, há mais de quinze anos atrás, King chegou a anunciar a sua "aposentadoria". Hoje ele está com 69 anos e, só nessa década, já lançou oito livros novos. Realmente, quando se trata de heróis sexagenários que se mostram capazes de fazer melhor do que qualquer mocinho mais jovem, nem mesmo o detetive aposentado Hodges pode competir com o mestre King.

O Caveira volta dos mortos (de novo!)


Fala sério, dessa vez você achou que eu tinha abandonado de vez este velho blog, não é mesmo?

Um ano e três meses sem postagens. É verdade: a Cripta ficou abandonada, como já aconteceu outras vezes no decorrer destes 13 anos (!) desde que o blog foi inaugurado em seu primeiro endereço, em 2004.

Mas agora é hora de começar a botar as coisas em ordem por aqui!

De cara, já inauguramos uma nova identidade visual e um novo endereço - www.criptadocaveira.com.br. É nóis na fita, boys and ghouls!

Aguardem novas resenhas de filmes, de séries, de livros, de álbuns e, é claro, muita arte e cultura pop de horror.

O Caveira está de volta.

Party night na Cripta!

Som na caixa, DJ!

"Quando o relógio bate as oito,
Todas as caveiras comem biscoito;

Tumbalacatumba tumba ta,
Tumbalacatumba tumba ta..."



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Caveira analisa: os dois primeiros episódios da nova minissérie de Arquivo X



Atenção: contém SPOILERS! Não continue lendo se você ainda não viu os novos episódios!

Antes de mais nada: fiquei feliz de rever a dupla de agentes do FBI mais amada da história da televisão. Anderson e Duchovny ainda conseguem criar aquela química perfeita entre os protagonistas. Foi muito bom rever Mulder e Scully e foi sensacional ver dois novos episódios de Arquivo-X, depois de quase quatorze anos. 

Sobre os episódios em si, as impressões e sentimentos são mistos.

É bom lembrar que essa nova minissérie será composta por um arco narrativo de seis episódios. Por isso, é importante ter em mente que não é possível avaliar a qualidade deste retorno da série com base apenas nestes dois primeiros. Aquilo que ainda veremos nos quatro episódios seguintes provavelmente mudará, para melhor ou para pior, a nossa percepção sobre estes dois episódios iniciais. 

Feita esta ressalva, é impossível escapar de observações críticas mais óbvias. O primeiro episódio, "My Struggle", é simplesmente uma bagunça e sofre de sérios problemas de andamento. Começa imensamente promissor, mas vai se tornando progressivamente mais anticlimático até chegar ao final, quando somos informados que a divisão Arquivo X do FBI foi subitamente reaberta (por qual razão? Sob a autoridade de quem? Como Mulder e Scully voltam magicamente a ser agentes do FBI da noite para o dia?) e tomamos conhecimento de que o mais memorável antagonista da série, o "Smoking Man" (que aqui no Brasil era ridiculamente chamado de "O Canceroso") ainda está vivo, apesar de o último episódio da série clássica, em 2002, ter mostrado detalhadamente, com direito a "close", que ele foi explodido com um míssil disparado em sua direção.

Tudo isso é perdoável. Uma pequena carência de detalhes aqui, uma ressurreição milagrosa acolá ... quem sabe ainda virá uma explicação razoável mais adiante? O que é menos digerível é a completa bagunça da trama do primeiro novo episódio. De uma hora para outra, somos apresentados a uma nova conspiração que contradiz grande parte do que a série original estipulava como canônico - e, em questão de minutos, vemos Mulder absolutamente convencido dessa "nova verdade" e desacreditando as conclusões de seu próprio trabalho de quase uma década no FBI. É duro de engolir - ainda mais porque a nova teoria conspiratória soa ainda mais inverossímil do que a anterior. A conspiração original era recheada de elementos fantásticos. A nova conspiração mantém a camada fantástica, mas adiciona uma nova camada que mistura os mais variados elementos de antiglobalismo, anticapitalismo, ultranacionalismo norte-americano e paranoia política e econômica. 

Ao final do primeiro episódio, não sabemos mais qual é a loucura "oficial" da trama - ou seja, se a nova piração é uma cortina de fumaça em torno da piração original ou se a piração original era uma cortina de fumaça em torno desta piração à qual somos apresentados agora. Se todo esse caos narrativo é uma forma genial de nos deixar confusos e imersos na história enquanto ela se desenvolve - ou se é apenas má técnica narrativa -, é coisa que só saberemos vendo os próximos quatro episódios.
Felizmente, o segundo episódio normaliza um pouco as coisas. Depois da vertigem de passar por aquele que é sério candidato a episódio mais esquisito e confuso de Arquivo-X de todos os tempos, somos na sequência confortavelmente apresentados a um episódio mais "normal", em estilo clássico, puro Arquivo-X dos anos 90 do começo ao fim, mas mantendo de forma sutil as conexões com a mitologia central da série e com o episódio anterior. De fato, se mostrou sábia e oportuna a decisão de exibir o segundo episódio logo depois do primeiro (com uma diferença de 24 horas, nos EUA, e ambos na mesma noite aqui no Brasil). O segundo episódio faz um belo serviço no sentido de dissipar a sensação de deslocamento e perplexidade causadas pelo primeiro episódio.

De qualquer forma, o certo é que nós, fãs da clássica série, temos todos os motivos do mundo para estarmos animados e empolgados com este tão sonhado retorno. Ainda é cedo para dizer mais coisas sobre este novo arco de seis episódios. Será apenas um breve "comeback" festivo, ou será o ensaio para um retorno triunfal de Arquivo-X com novas temporadas? Será um marco na mitologia da série, ou será apenas algo análogo a um spin-of oportunista? Vamos lembrar deles com carinho e excitação pelas próximas décadas, ou será apenas uma diversão rápida e descartável de verão? 

Ainda é cedo para dizer. A única coisa certa é que a verdade está lá fora. De novo. E isso, por si só, já é muito, muito legal.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Caveira analisa: "Poltergeist" (2015)




Remakes de filmes excelentes são sempre vistos com grande desconfiança pelos fãs dos originais.

Com razão.

No mais das vezes, existem poucas motivações artísticas para recriar filmes que são considerados clássicos e que gozam de duradouro prestígio entre crítica e público. Por trás dos remakes, geralmente não existe nada além do desejo de fazer dinheiro explorando o bom nome de alguma grande produção do passado.

Não é diferente com este "Poltergeist" de 2015. Completamente desnecessário, ele não acrescenta absolutamente nada ao filme original (nem às suas sequências) em termos narrativos. Da mesma forma, o remake opta por uma fórmula acomodada e desprovida de criatividade e ousadia. Não espere um filme paradigmático dentro do gênero do horror, como foi a película original de 1982 dirigida pelo grande mestre Tobe Hooper.

Este novo "Poltergeist" é descartável e imediatamente esquecível. Mais preocupado com o público médio dos cinemas do que com fãs de cinema de horror, ele apresenta doses tão moderadas de sustos e elementos do gênero que, na maior parte do tempo, quase dá para esquecer que é um filme de horror. Parece mais um drama leve com pitadas cômicas e uma diversidade de elementos sobrenaturais. Não há atmosfera, não há inovação e não há uma atriz mirim maravilhosamente marcante como era o caso de Heather O'Rourke e sua inesquecível personagem Carol Anne (aliás, diga-se de passagem, ausente neste remake - ela foi substituída por outra personagem similar, mas que não tem nem 10% do sinistro carisma da antecessora).

Apesar de tudo isso, o remake está muito longe de ser um desastre. A direção é firme e competente, o ritmo é adequado, o respeito ao material original é evidente e o filme deixa bastante clara a sua completa ausência de qualquer pretensão de "reinventar" a obra original. É um remake acomodado, despretensioso e que espertamente mostra, em algumas cenas, que não se leva a sério demais. Merece uma conferida, desde que o espectador não espere do filme mais do que ele é: uma reimaginação modernizada e descompromissada do clássico de 1982, sem a menor intenção ou condições de ser um marco equivalente ao que foi o original.

Na minha opinião, o verdadeiro "Poltergeist" do cinema contemporâneo ainda é o excelente "Insidious", de 2011. Comparado com ele, este remake do velho "Poltergeist" mais parece um passeio de trem-fantasma voltado para um público infantil entre cinco a oito anos de idade.

Mas a fórmula de "terror light familiar" adotada pelo remake, aparentemente, atendeu aos desejos comerciais dos produtores: com um custo de US$ 35 milhões, o novo "Poltergeist" faturou nada menos do que US$ 95 milhões ao redor do mundo - um feito digno de nota para uma produção do gênero.

Enfim, não é um filme que vai marcar a vida de ninguém, mas rende uma hora e meia de relativa diversão. Vale à pena, até porque em poucos anos o remake irá fatalmente cair no buraco negro do esquecimento, ao mesmo tempo em que continuaremos falando com entusiasmo, pelas décadas vindouras, sobre o memorável filme original de 1982.

O Caveira recomenda - mas sem muito entusiasmo.