quarta-feira, 30 de março de 2022

O Caveira resenha: URBAN WARRIORS (1987)

 


Para começo de conversa, quero deixar claro que não sou um novato quando o assunto é cinema italiano oitentista de ação pós-apocalíptica. Já tive o prazer de assistir várias das melhores pérolas deste gênero de gosto tão duvidoso, dentre as quais destaco 2019 - AFTER THE FALL OF NEW YORK, 1990 - THE BRONX WARRIORS, ESCAPE FROM THE BRONX, KERUAK - O EXTERMINADOR DE AÇO e ENDGAME

Estou ciente das principais falhas comuns entre as produções italianas daquele gênero e época, como pobreza de orçamento, roteiros rocambolescos e caráter derivativo em relação a produções norte-americanas referenciais como THE WARRIORS, ESCAPE FROM NEW YORK e MAD MAX 2. Conheço os defeitos, mas adoro essas "trasheiras" mesmo assim.

Dito isso, passo a esclarecer que este Urban Warriors é trash até para os padrões do cinema italiano de ação pós-apocalíptica dos anos 1980. Não acredita? Então confira esta resenha e tire suas próprias conclusões.

                                     
Urban Warriors, dirigido por Giuseppe Vari, foi lançado em 1987. Na trama, três técnicos, cientistas, engenheiros ou qualquer coisa do tipo estão trabalhando em um laboratório/instalação militar subterrânea. De repente, eles perdem todo o contato com a superfície e o estabelecimento fica completamente sem energia elétrica. Eles tentam sair do lugar, mas uma parte da estrutura sofre um desabamento, tornando impossível o acesso à saída e prendendo o trio no local. Depois de uma longa caminhada por túneis subterrâneos, eles acabam encontrando uma saída alternativa e finalmente chegam à superfície ... apenas para descobrir que uma guerra nuclear transformou tudo nas redondezas em um deserto desolado. Embora tal fato represente um choque para os personagens naquele momento, não há aqui nenhum "twist" para o espectador, que no começo do filme é apresentado a uma sequência de imagens de explosões nucleares misturadas com atividades vulcânicas (?), estragando qualquer possibilidade de surpresa.

O mundo pós-apocalíptico encontrado pelos protagonistas é bastante singular. Não vemos ruínas de prédios, nem destroços de veículos, nem corpos ou sinais de destruição urbana. Os "heróis" dão de cara com uma paisagem deserta de um lado, mas com vegetação preservada ao fundo (que explosão nuclear é essa que faz uma cidade desaparecer mas que preserva a grama?!?) e com duas estruturas intactas no horizonte. A primeira estrutura parece um conjunto de prédios sofisticados perfeitamente preservados. A outra parece uma precária instalação industrial abandonada. Para onde o trio de gênios da ciência resolve ir? Claaaaro, para o parque industrial inóspito! Fuck logics


No pátio industrial abandonado, os intrépidos sobreviventes encontram alguns alimentos enlatados e garantem um bom jantar pós-holocausto nuclear. Você poderia imaginar que, na vida real, três pessoas passando por uma experiência traumática dessas estariam simplesmente em choque e incapazes de comer ou dormir, não é mesmo? Bom, mas isso não se aplica para os cabras machos de Urban Warriors! A poeira nuclear ainda nem baixou e o nosso trio de heróis só pensa em dormir, comer, tomar cervejas e fazer piadas. É sério, eu juro! Os "heróis" lidam com o fim do mundo com a indiferença de alguém que foi pego de surpresa pelo imprevisto de um pneu furado ou de um celular sem bateria. Isso é o que eu chamo de um mindset otimizado para o pós-apocalipse!
 
                                              

Depois de umas cervejas e de um banquete de comida enlatada, o trio resolve dormir de novo (só para esclarecer: antes de chegarem à superfície, algumas horas antes disso, eles tinham dormido nada menos do que oito horas dentro da instalação subterrânea). Esses sujeitos são narcolépticos ou o quê? Nem filhote de gato dorme tanto assim!

                                                 

Depois da segunda noite de sono (em vinte minutos de filme!), o trio mais zen e relax que o fim-do-mundo já viu lida com uma sequência alarmante de novos acontecimentos. Primeiro, um dos cientistas se afasta dos outros para investigar um ruído na rua e desaparece. Posteriormente, seus colegas encontram apenas a cabeça do sujeito. Para variar, eles lidam com este chocante horror de forma aparentemente tranquila e indiferente - afinal de contas, o que é um amigo decapitado para quem lida de boas com o apocalipse nuclear, não é mesmo?

                                            

Em seguida, um dos cientistas encontra uma gravação em áudio feita por um desconhecido sobrevivente da guerra nuclear. Na gravação, a pessoa afirma que a radiação não apenas matou quase todo mundo como também causou algum tipo de mutação nos sobreviventes, tornando-os violentos e animalescos.

Peraí um pouco. Vamos tentar entender isso aí. Os caras estavam numa instalação subterrânea quando a guerra nuclear estourou. Eles levaram pouco mais de oito horas para chegar na superfície (sendo que passaram a maior parte deste tempo dormindo). Depois caminharam mais algumas horas e dormiram mais uma noite (depois de uma farra com cervejas e comida enlatada). Mas então quer dizer que o mundo acabou há menos de 24 horas e a civilização já foi substituída por um neobarbarismo estilo Mad Max, com maníacos enlouquecidos caçando outros sobreviventes de forma selvagem? E não apenas o mundo virou uma selva canibal em questão de poucas horas como deu tempo até de alguns sobreviventes registrarem o ocorrido em gravações de áudio? Isso aí é o "roteiro" de Urban Warriors?

                                           

Sim, é isso aí mesmo. Acredite se puder. Ah, e olha só que coisa curiosa: a radiação "enlouqueceu" parte dos sobreviventes, transformando-os em psicopatas homicidas sanguinários, mas não gerou nenhum tipo de lesão física aparente em ninguém! Que radiação mais diferentona esta, não é mesmo? Estou sendo irônico, é claro, pois fica evidente que a ideia da "radiação que afeta o psicológico mas não afeta o físico" foi apenas uma maneira de os realizadores deste filme pouparem uns trocados.

                                               

Mas voltemos à trama. Depois de tudo isso, os dois cientistas sobreviventes começam a ser ferozmente atacados por uma gangue de maníacos mutantes neobárbaros e, logo em seguida, uma violenta perseguição automobilística tem início (ohhhhh, quem poderia imaginar que isso iria acontecer em um clone italiano de Mad Max 2, né?). Tiros são trocados, motocicletas são espatifadas, mas a dupla de heróis remanescentes sobrevive. Então, entre uma troca de ideias e outra, eles chegam à conclusão de que nem todos os sobreviventes devem ter virado psicopatas homicidas e que devem ter sobrado algumas pessoas normais por aí em algum lugar. A dupla resolve procurar estes sobreviventes "do bem". Para tanto, eles elaboram o plano mais genial de todos os tempos: os dois resolvem SE SEPARAR para realizar as buscas!!! Fuck logics parte 2 - A Missão!!!


Não é brilhante? Afinal de contas, existe jeito melhor de encarar uma selva urbana pós-apocalíptica, repleta de maníacos tornados insanos por radiação nuclear, do que estando SOZINHO?

Esquadrão Classe Ai-que-merda!

Nestas idas e vindas, mais um dos cientistas é morto pelos neobárbaros atômicos, como já seria de se esperar. É isso que dá quando pesquisadores de laboratório subterrâneo resolvem brincar de Mad Max. Assim, dos três protagonistas do começo do filme, apenas um - Brad - sobrevive. "Coincidentemente", Brad é o mais fotogênico e galã do trio - tanto é que, no pôster do filme, ninguém fez questão de incluir nenhum dos outros dois cientistas. Pois é, o mundo não era fácil para os nerds nos anos 1980 - ainda mais quando rolava guerra atômica!

A essa altura do filme, já tivemos de tudo: guerra nuclear, motoqueiros mutantes, perseguições automobilísticas, trocas de tiros, dois cientistas trucidados, etc. Para uma plena e completa experiência trash/exploitation italiana oitentista, é claro que falta só mais uma coisa: nudez gratuita. É aí que uma tal de Julia aparece do nada no caminho de Brad e acaba seduzindo ele.

                                                   

Com sexo, cerveja e comida enlatada, Brad provavelmente deve ter pensado que o apocalipse nuclear até que não é lá tão ruim assim. Mas, como pão radioativo de pobre sempre cai com a manteiga atômica virada para o chão, Julia se revela uma integrante da gangue dos facínoras das estradas e entrega Brad nas mãos da horda de maníacos. Infelizmente para a ladina sirigaita, um dos trogloditas resolve matar ela ali mesmo, a troco de nada, em cinco segundos, porque sim. Ninguém liga.

                                               

Aprisionado pelos aloprados radioativos, Brad conhece Angela, que também escapou dos efeitos da radiação. Na sequência, Brad é julgado e condenado por um tribunal neobárbaro de pretensos representantes do povo. Mais uma vez, é notável ver como os sobreviventes malucos da guerra nuclear não apenas conseguiram se manter vivos como, também, criaram instituições, procedimentos jurídicos e conjuntos inteiros de novos costumes e regramentos sociais - tudo isso em questão de uns poucos dias. É muita eficiência! Me faz lembrar daquele antigo episódio de South Park em que os habitantes da cidade ficam presos dentro de um prédio e acabam recorrendo ao canibalismo para sobreviver, apesar do fato de serem libertados em questão de quatro ou cinco horas.

                                        

De volta ao filme. Depois de uma das piores cenas de "tribunal" da história do cinema, felizmente vemos nosso herói Brad recebendo ajuda de uma das integrantes da gangue e fugindo do seu cativeiro, levando Angela junto. O recém formado casal tem sucesso no confronto final com a gangue dos psicopatas atômicos e os dois sobreviventes partem juntos em busca de um futuro de esperança - e era isso: The End !

                                                     

Como você pode perceber, Urban Warriors é ruim. Indefensavelmente ruim. A produção é de uma pobreza franciscana, as atuações são amadoras, os diálogos são risíveis, as cenas em ambientes escuros são simplesmente um breu total, a ação é pobre e limitada e o pôster é muito mais legal e produzido do que o filme em si. Ao mesmo tempo, fãs do gênero invariavelmente irão se divertir com o humor involuntário e com as limitações técnicas dessa produção barata. 

                                          

Eu já assisti alguns filmes de orçamento magérrimo dentro do estilo sci-fi/action distópico dos anos 80 - como, por exemplo, o paupérrimo Endgame. Ainda assim, devo admitir que, em termos de pobreza e falta de orçamento, Urban Warriors supera qualquer coisa que eu já tenha visto até hoje neste gênero. Há algo de engraçado e divertido em ver Urban Warriors e perceber como é possível fazer um filme de ação distópica pós-apocalíptica com praticamente nenhuma verba. Sob este aspecto, pela ambição temática na comparação com a pobreza de orçamento e pelo que consegue entregar apesar da carência de recursos, de atores decentes e de um roteiro competente, fica difícil não sentir uma certa admiração e respeito pelo charme cara-de-pau de Urban Warriors.

Não se faz mais filmes assim. (In)felizmente? 

   


segunda-feira, 14 de março de 2022

O Caveira resenha: ALLIGATOR (1980)

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Esse aqui era figurinha recorrente na programação do SBT nos anos 80. Não sei se cheguei a ver o filme inteiro na infância, mas lembro bem de ter visto pelo menos algumas partes nas várias reprises da época. Nunca mais tinha cruzado com esse filme em lugar nenhum. Há alguns dias, vi ele pela primeira vez em cerca de 30 anos.

Contrariando qualquer expectativa razoável, o filme é divertido, bem produzido, tem ótimo ritmo e é muito acima da média para os padrões da época.

Alligator é dirigido por Lewis Teague (que tem no currículo a ótima antologia de horror Cat's Eye, de 1985, bem como o clássico oitentista The Jewel of the Nile, lançado naquele mesmo ano).

Na trama, um filhote de crocodilo é atirado na privada, vai parar no esgoto e começa a se alimentar de lixo tóxico. Doze anos depois, transformado em um mutante monstruoso, o bichão começa a tocar o terror em Chicago. 


Para um filme de crocodilo assassino, o resultado geral impressiona. Alligator acerta bastante no tom, não se leva excessivamente a sério e mistura doses equilibradas de suspense, terror e alívio cômico (até com uma pitada de romance cafona).

Destaques para os efeitos práticos da criatura, que ficaram bastante convincentes, e para a atuação de Robert Forster (mais conhecido pelo público contemporâneo por sua participação na série Breaking Bad).

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Estou realmente convencido de que Alligator é tão bom quanto um filme de crocodilo assassino pode ser. Tudo bem, ele não é mais tão convincente quanto nos anos 1980, mas ainda é uma diversão garantida. Dê um jeito de ver!

     

sexta-feira, 11 de março de 2022

O Caveira resenha: THE GUARDIAN ("A Árvore da Maldição"), de 1990

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Vi "A Árvore da Maldição" pela primeira vez na Globo, no começo dos anos 1990. Admito que, na época, achei o filme um pouco assustador (especialmente nas cenas da árvore maldita). Revendo agora, quase trinta anos depois, sobra muito pouco - ou absolutamente nada - para elogiar.

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Na trama: um casal contrata uma babá para cuidar do filho recém-nascido e acaba descobrindo que a atenciosa jovem age movida por forças sobrenaturais.

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Dirigido por William Friedkin (célebre pelos clássicos "O Exorcista" e "Operação França"), The Guardian tem um ótimo ponto de partida e sua premissa sinistra poderia ter rendido um filmão.

Infelizmente, o filme fica devendo em ritmo, edição, atmosfera, som e nas atuações fracas (só a vilã, interpretada por Jenny Seagrove, se salva). O resultado é uma mediocridade do começo ao fim. O diretor renega o filme até hoje e já admitiu publicamente que ele "não funciona".

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Em tempo: esse filme saiu em 1990 e, dois anos depois, o Iron Maiden apareceu com essa ideia de "árvore maldita" na capa do lendário álbum Fear of the Dark. Será que a banda se inspirou nesse filme fraquinho ou será que foi só coincidência?

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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

NASTY!

Aí vai uma ótima sugestão de diversão retrô para o Halloween: o episódio Nasty, da antiga série britânica The Young Ones.

The Young Ones é um ícone da cultura pop britânica dos anos 1980. A série, que foi exibida originalmente entre 1982 e 1984, teve apenas 12 episódios (este formato curto é relativamente comum em séries do Reino Unido) e era centrada nas desventuras de quatro estudantes universitários que dividiam uma casa. Os personagens principais eram o punk Vyvyan, o anarquista Rik, o hippie depressivo Nigel e o inescrupuloso e "cool" Mike. 

Em Nasty, a série parodiava o pânico moral que tomou conta do Reino Unido no começo da década de 80, com a chegada no mercado de VHS de diversos filmes de horror e de violência explícita que escapavam das normas de censura etária até então existentes -  frequentemente chegando, por conta disso, às mãos de crianças e adolescentes. Esses filmes de terror condenados pela crítica conservadora da época ganharam a alcunha pejorativa de video nasty, ou seja, vídeos "desagradáveis", "sórdidos" ou "repulsivos".

Após uma abertura que parodia o estilo e a atmosfera do cinema de horror britânico clássico dos anos 1950 e 1960, o episódio começa com Vyvyan, Rik, Nigel e Mike em um cemitério, carregando o caixão de uma pessoa não identificada. 

 

Ao chegar na sepultura preparada para o enterro, eles dão boas vindas a um padre alcoólatra (interpretado pelo saudoso e inesquecível Terry Jones, um dos gênios da  incomparável trupe humorística Monty Python) que irá realizar a cerimônia fúnebre. 

 

Após alguns conflitos retóricos, o quarteto começa a explicar a cadeia de eventos que os levou até aquele momento - e tudo remonta ao instante em que eles decidiram alugar um vídeo-cassete para assistir um filme escabroso de terror ("video nasty") em VHS.

É até difícil descrever em palavras todo o nonsense anárquico do episódio, que conta com: a aparição de um vampiro que tenta convencer o grupo de que é apenas um instrutor de direção; alfinetadas na política conservadora britânica da época ("the bathroom is free, unlike the country" - com o personagem Rick chamando o governo da época de "junta thatcherista"; trocadilhos com o clássico Ashes to Ashes de David Bowie; cenas satirizando o icônico filme O Sétimo Selo de Ingmar Bergman e, acima de tudo, com a participação especial da lendária banda de gothic punk The Damned, tocando no estúdio a música Nasty - que a banda escreveu especialmente para este episódio!

O episódio "Nasty" foi ao ar pela primeira vez em 29 de maio de 1984. Quase quarenta anos depois, ainda é uma ótima diversão - e um pedaço da história da cultura pop britânica.

O Caveira recomenda. E lembre-se: "Only pop music can save us now!"

 


terça-feira, 6 de outubro de 2020

SEXTA-FEIRA 13 - A SÉRIE (1987-1990)

 

Há poucos dias, decidi finalmente dedicar algum tempo para conhecer uma série de horror sobre a qual ouço falar desde criança, mas que nunca havia recebido minha atenção até então: Friday the 13th - The Series. Aqui no Brasil, a série é conhecida como Sexta-Feira 13 - O Legado ou Sexta-Feira 13 - A Série.

Admito: lá no comecinho dos anos 1990, quando eu passava horas em cada locadora da cidade investigando cada caixinha de VHS nas prateleiras, as "fitas" contendo episódios desta série me deixavam com um misto de medo e curiosidade. Cada um dos VHS nacionais reunia dois episódios da série, e a arte era excelente e provocativa.


Apesar disso, meu interesse em conhecer a série desapareceu, na época, à medida em que compreendi que ela não tinha absolutamente nada a ver com os famosos filmes estrelados pelo serial killer Jason.

Sim, é isso aí mesmo: esqueça Jason, esqueça o camping Crystal Lake, esqueça a mãe do Jason matando adolescentes fazendo vozinha de maluca e sussurando "Mata ela, mamãe". Esqueça Tommy Jarvis, esqueça Jason voltando dos mortos por causa de um raio, esqueça Jason dando rolê em Nova York. A série de TV "Sexta-Feira 13" não tem NENHUMA relação temática ou narrativa com a série de filmes oitentistas que hoje são clássicos do gênero slasher.

 

Ora, mas qual é o sentido de fazer uma série chamada "Sexta-Feira 13" que não tem nada a ver com os filmes? O "sentido" aqui, é claro, é a boa e velha vontade de encher os bolsos de dinheiro. A série foi concebida por Frank Mancuso Jr, que foi produtor de cinco filmes da franquia. A ideia original era chamar a série de The 13th Hour, mas Mancuso pensou - com toda a razão - que atrelar a nova série de TV ao nome da franquia de filmes de horror mais famosa dos anos 1980 ajudaria muito a chamar a atenção do público para o novo show. Por óbvio, ele tinha razão.


Talvez seja este o principal fator que sempre me afastou, ao longo de todos estes anos, de Sexta-Feira 13 - A Série. Parecia se tratar apenas de uma desculpa esfarrapada para alguém em Hollywood encher os bolsos de dinheiro em cima dos fãs de Jason Voorhees.

No entanto, agora que estou tratando de conhecer a série, posso atestar que esse preconceito inicial que eu sempre tive contra ela não procede. Deixe o nome oportunista da série de lado e você terá uma das melhores antologias de horror já feitas para a televisão em todos os tempos. 


Na trama, dois jovens primos - Micki e Ryan - herdam do falecido tio uma sinistra loja de antiguidades. O que parecia um inesperado presente acaba se revelando como o mais infernal dos abacaxis quando a dupla descobre que o seu finado tio fez um pacto com forças ocultas e que, em busca da imortalidade (hmmm ... não deu muito certo, né?), começou a vender dezenas de objetos amaldiçoados por aí, para diferentes pessoas. 


Essas bugigangas carregadas de maldições representam a morte certa para seus compradores (ou para pessoas próximas a eles). Cientes deste fato, Micki e Ryan decidem examinar todas as vendas de antiguidades diabólicas documentadas nos registros do velho tio e estabelecem a missão de reaver todos e cada um deles, para que sejam armazenados em segurança num depósito especial no subsolo da loja. Nesta missão, a dupla será auxiliada por um velho amigo do falecido: o especialista em ocultismo Jack Marshak.


Sexta-Feira 13 - A Série teve 3 temporadas, com um total de 72 episódios. Enquanto esteve no ar, recebeu bastante reconhecimento e hoje é lembrada não apenas como uma ótima série televisiva de horror, mas também como uma influência importante para shows posteriores como Buffy the Vampire Slayer, Angel, Warehouse 13 (cuja premissa era simplesmente uma cópia descarada de Sexta-Feira 13 - A Série) e até mesmo para The X-Files - a mais cultuada e aclamada série de TV dos anos 1990.

 
O cancelamento abrupto da série, na terceira temporada, impediu que o arco maior da trama fosse efetivamente concluído de forma planejada e satisfatória. Ainda assim, para os fãs de horror, "Sexta-Feira 13 - A Série" é diversão garantida com sua fórmula de boas histórias mórbidas somadas a doses generosas de violência gráfica (e até mesmo de sexualidade, em um episódio ou outro), coisa pouco comum em produções televisivas até então.
 


Mas, mesmo após todos estes anos, devo admitir que o que mais dá medo na série ainda são aquelas velhas capas das fitas VHS lançadas por aqui!

 

Claro, às vezes rolavam algumas altas mancadas no nosso mercado de vídeo nacional. Um exemplo hilário: em 1990, a CIC Vídeo lançou no mercado nacional o "filme" Profecias de Satã (The Prophecies), sem fazer qualquer menção à série de TV Sexta-Feira 13. O único "detalhe" é que este filme jamais existiu: na verdade, The Prophecies era o episódio duplo que abria a terceira temporada da série. Aqui no Brasil, este episódio em duas partes foi lançado em VHS como se fosse um filme - e sem qualquer relação com a série. Vai entender!


terça-feira, 24 de setembro de 2019

O Caveira analisa: "SHOCKER" (1989)


Pela primeira vez em 25 anos, revi "Shocker" (1989), dirigido pelo saudoso mestre Wes Craven. Quando vi o filme pela primeira vez, ali por volta de 1994 (numa exibição na Globo, provavelmente na "Tela Quente"), fiquei bastante impressionado pelas cenas brutais de violência e por alguns sustos dignos de nota. Olhando agora, em retrospecto, o que mais chama a atenção em "Shocker" é o quanto o filme é irregular.


Não há nada de errado, é claro, em misturar terror com humor e violência com nonsense. Os anos 80, aliás, foram repletos de filmes hollywoodianos nessa linha - o que levou até mesmo à criação do termo "terrir", para fazer referência a filmes que ficavam em uma zona cinzenta entre a comédia e o horror. Para mim, "Fright Night" ("A Hora do Espanto", de 1985), "Gremlins" (1984) e "Sexta-Feira 13 Parte VI - Jason Vive" (1986) talvez sejam os exemplares mais perfeitos do "terrir" oitentista.


Mas a mistura não funciona bem em "Shocker". Os momentos de terror e violência são brutalmente sérios, quase aflitivos e dramáticos demais, ao passo que os momentos de humor são de um nonsense que chega às raias da comédia pastelão. Os últimos quinze ou vinte minutos do filme são tão risivelmente ridículos e tão esdrúxulos, do ponto de vista narrativo, que o espectador se sente como se alguém tivesse trocado de canal, tirado do filme e colocado em um desenho animado antigo estilo Looney Tunes. Assim como uma Ferrari vai de 0 a 100 km/h em 3 segundos, "Shocker" vai do drama sobrenatural e do slasher sanguinolento para o besteirol completo mais ou menos na mesma velocidade.

Talvez "Shocker" seja o melhor exemplo, até hoje, de um filme de horror que começa muito bem, mas que desanda por completo da metade para o final.

Apesar disso, há uma série de coisas interessantes e dignas de notas no filme. Vamos a elas!

A temática do serial killer que transcende o mundo material e se converte em um assassino espectral, em última instância, é claramente uma reimaginação dos principais elementos do clássico "A Nightmare on Elm Street" ("A Hora do Pesadelo", de 1984), a obra máxima de Craven. 


A ideia do assassino que tem o poder de trocar de corpos e de possuir pessoas possivelmente foi a inspiração direta para "Jason Goes to Hell: The Final Friday", de 1993 (o nono filme da cinessérie "Sexta-Feira 13").

Já o conceito do assassino em série que continua colecionando vítimas, mesmo após a sua execução na cadeira elétrica, lembra muito o argumento do excelente "The Frighteners" ("Os Espíritos", de 1996) de Peter Jackson - um dos meus filmes de terror favoritos de todos os tempos.

Ah, e não dá para deixar de observar que a ideia de um fantasma saindo de aparelhos de televisão para matar pessoas aparece em "Shocker" nove anos antes de a assusstadora menina espectral Sadako dar as caras pela primeira vez no horror japonês "Ringu" (1998), que em 2002 ganhou um remake americano pelas mãos do diretor Gore Verbinski. Aliás, o livro que deu origem ao filme (de autoria de Koji Suzuki) foi lançado em 1991 - portanto, na época em que "Shocker" era um filme de horror contemporâneo. Será que rolou alguma inspiração ou influência da película de Craven?


Também vale registrar que é muito divertido ver o ator Mitch Pileggi como um serial killer insano com poderes sobrenaturais, em total contraste com a figura contida e sóbria do personagem que celebrizou o ator anos depois - o diretor-assistente do FBI Walter Skinner, de "Arquivo X".


Uma curiosidade: a música tema ("Shocker") é obra da banda The Dudes of Wrath. Nunca ouviu falar? Não se preocupe. Nem você e nem ninguém já ouviu falar dessa "banda". Na verdade, a "The Dudes of Wrath" só gravou essa única música, e era integrada por Paul Stanley (do KISS), pelo produtor Desmond Child, pelos guitarristas Vivian Campbell (Def Leppard) e Guy Mann-Dude, pelo baixista Rudy Sarzo (Whitesnake) e pelo baterista Tommy Lee (Mötley Crüe). Tá bom ou quer mais? De fato, uma super banda. E a faixa, é preciso reconhecer, até que é bem legalzinha. Na verdade, a trilha sonora oficial acaba sendo melhor do que o próprio filme, contando ainda com o excelente cover (feito especialmente para o filme!) de "No More Mr. Nice Guy" do Alice Cooper, pelas mãos sempre habilidosas do Megadeth. A trilha oficial contava também com músicas de Iggy Pop, Bonfire, Saraya, Dangerous Toys, Voodoo X e Dead On.


Pois bem, vamos à trama do filme! É o seguinte: Horace Pinker é um serial killer que está aterrorizando uma cidade, tendo cometido dezenas de homicídios e iludido a polícia local de forma brilhante. Finalmente capturado pela polícia, o homicida é executado na cadeira elétrica. O problema é que Pinker, além de assassino serial nas horas vagas, era também um ativo praticante de magia negra. Graças aos seus conhecimentos sobre ocultismo, a destruição de seu corpo físico acaba sendo apenas o começo do pesadelo dos moradores da cidade.

As cenas que eu considerava como as mais assustadoras, quando vi o filme pela primeira vez na adolescência, eram aquelas em que o fantasma da namorada do protagonista aparecia do nada para orientá-lo ou ajudá-lo. Essas cenas não parecem nem um pouco impressionantes para os padrões atuais, embora o "timing" da aparição talvez possa causar alguns sustos rápidos nos espectadores contemporâneos. De qualquer forma, a sanguinolência e brutalidade estética de "Shocker" ainda impressionam, e o filme apresenta várias cenas de "splatter" bastante explícito, que merecem uma conferida. Aliás, pensando nisso, é espantoso que esse filme, nos anos 90, tenha sido exibido na TV aberta em horário nobre. Não imagino isso sendo possível nos dias atuais.


Enfim, "Shocker" merece uma conferida não apenas por ser um trabalho de Craven, um dos mais lendários e cultuados diretores do gênero, mas também pelas várias boas ideias e cenas que são construídas ao longo da trama. É uma pena que todas as qualidades são severamente comprometidas por um roteiro irregular e incoerente e pela aparente indecisão dos realizadores sobre o estilo e a atmosfera do filme. "Shocker" tenta ser tudo ao mesmo tempo (slasher brutal, drama, mistério, horror sobrenatural, comédia nonsense e filme adolescente com pegada "hard rock"), e o resultado é uma mistura ruim, incoerente e mal desenvolvida.


Segundo o "Guia de Vídeo - Terror", de Guilhermo de Martino (1996, Editora Escala), o filme é uma "tentativa do veterano Craven de criar um novo Freddy Krueger, desta vez fazendo uso da sempre discutida carga de violência apresentada pela televisão e utilizando a mesma idéia de 'The Indestructible Man' ('O Homem Indestrutível', 1956), estrelado por Lon Chaney Jr. Começa bem, mas é difícil aceitar o final, quando herói e vilão duelam comicamente através de noticiários e programas de TV, usando um controle remoto como arma!".

Bota difícil nisso!



NOTA DO CAVEIRA: