terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Você Sabe o que é uma porcaria? A MÚSICA POP DOS ANOS 90!

Hoje postaram um link para o vídeo da música "Be My Lover", da La Bouche. Acabei inadvertidamente clicando nessa coisa e, como resultado de ser submetido a semelhante flagelo, tive mais um daqueles meus flashes traumáticos dos anos 90 que me acometem de vez em quando. É uma coisa tipo "memórias do Vietnã", sabe? O horror, oh, o HORROR!!!

Os anos 90 começaram bem: Guns N'Roses e Metallica eram provavelmente as duas maiores bandas do mundo, o pop-punk californiano do Offspring e do Green Day animava as rádios e o grunge de bandas como Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains indicava os rumos da música pop para a década. Mas daí, em 1994, deu uma zebra.

Kurt Cobain se matou.

Depois dessa tragédia, parecia que a indústria musical havia perdido por completo a fé na humanidade, e que havia desistido de investir em música feita por seres humanos e para seres humanos. Subitamente, uma década que havia começado criativa e cheia de energia caiu irreversivelmente no abismo do eletrônico, do pasteurizado, do sem alma e do genérico. Fazer música com atitude (ou alegre) virou crime. O tom "correto" agora era asséptico, blasé, robótico, ultracomercial e vegetativo.


Não me entenda mal, não tenho nada contra música eletrônica. Sou fã de Jean Michael Jarre, Kraftwerk e Depeche Mode. Mas aquele "bate estaca" que tão bem define a segunda metade dos anos 90 não era "música eletrônica", mas sim um lixo monocórdico desprovido de qualquer criatividade e autenticidade! Não haviam melodias, não haviam batidas empolgantes, não haviam frases inteligentes: era só uma série de vocais e barulhos estourados por cima de uma batida sempre idêntica, que mais parecia o ruído de entulhos caindo no chão do que propriamente uma "bateria". Compare Depeche Mode e The Smiths com Prodigy e Spice Girls, e você terá uma boa ideia do abismo de qualidade que separava o pop dos anos 80 das abominações noventistas.



A moda daquele momento, o "dance" genérico desprovido de alma, era reciclado de forma idêntica a lixo, em coletâneas da Jovem Pan e coisas do tipo, nas quais cada CD trazia dezenas de faixas de "artistas" dos quais ninguém antes havia ouvido falar e dos quais jamais se ouviu falar novamente. Cada desempregado com um mínimo de equipamento (e com um suficiente grau de deficiência auditiva) era um DJ em potencial, apto a animar festas abomináveis com o "batidão" onde tudo se parecia com qualquer coisa (para os bares era uma boa, pois para aguentar aquela merda de música, só bebendo MUITO). Plaboys mongolóides roubavam os automóveis de seus pais nos fins de semana e cruzavam a cidade ouvindo o "batidão" num volume que fazia a lataria chacoalhar. O apocalipse parecia próximo.


Fora do "dance" e derivados, o cenário da música pop era desolador como um cenário qualquer dos filmes da série Mad Max. A indústria musical festejava o Hanson, um trio de crianças cantando canções grudentas - uma coisa nível jardim de infância, mais ou menos como se estivessem querendo convencer o mundo de que o Balão Mágico era o grande supergrupo musical do momento! As Spice Girls despontavam como o grupo máximo da época, embaladas pela insuportável "Wannabe" e outras músicas que mais pareciam um teste de sanidade do que qualquer outra coisa. A dignidade humana estava se deteriorando com tamanha velocidade que, certo dia, começaram a dizer que "Fat of the Land" era um dos melhores álbuns da década e que o Prodigy era um grupo de gênios. Confesso que, nesse momento, se houvessem condições materiais para um exílio fora da Terra, eu teria optado por ele.


A doença se espalhava de forma alarmante. Colegas de escola que ouviam Ramones e Nirvana apareciam, no ano seguinte, curtindo Aqua e Spice Girls. Amigos metaleiros se sentiam na obrigação de comprar um CD do Jamiroquai para "experimentar". Qualquer música feita com guitarra, baixo e bateria de verdade era um crime. Qualquer banda originada de forma autêntica, e não composta por modelos e criada em laboratório por marqueteiros, era um crime. Riffs de guitarra eram crime


Por toda a parte, o bom-senso e as boas maneiras orientavam os músicos a "amaciarem" o seu som. O U2 (que antes e depois disso sempre foi uma banda acima de qualquer crítica) decidiu lançar um álbum chamado "Pop" repleto de sonoridades eletrônicas, para desgosto de seus fãs roqueiros de longa data. O termo "heavy metal" virou pejorativo, e nem as bandas do estilo não queriam mais ser tratadas por tal nomenclatura.


Daí vieram os Backstreet Boys, o N'Sync e por aí vai, e a marcha da humanidade para o inferno parecia irreversível.

Mas aquele estado de coisas não poderia ser eterno. No começo dos anos 2000, num belo dia semelhante a qualquer outro, "Seven Nation Army" do White Stripes tocou no rádio, e então o mundo subitamente se lembrou de que riffs de guitarra eram legais. De repente, o heavy rock voltou mais pesado do que nunca. A moda era o novo "Nu Metal", com bases de guitarra pesadíssimas, vocais berrados e agressivos e músicas sem solos. Ser barulhento e orgânico (e humano!) voltou a ser algo legítimo. 


Música eletrônica que parecia feita num Gerador Automático de Dance-Vagabundo virou uma coisa ultrapassada e sem graça, restrita a guetos de tomadores de bola. Alguns anos depois, apareceu o Franz Ferdinand, e dali em diante ninguém mais passou a duvidar de que não existem instrumentos mais adequados para a boa música pop do que baixo, guitarra e bateria tocados por seres humanos que realmente gostam de música.


É por essas e outras que já estamos há uma década fazendo contínuas festas Anos 80 por aí, sempre relembrando e comemorando a cultura pop daquela época, ao passo que até o momento ninguém ainda sentiu nenhuma vontade de relembrar os vergonhosos anos NOJENTA. Iremos relembrar a década de 80 por mais alguns anos, e depois irá começar o revival dos anos 2000, e os anos nojenta ficarão na latrina da história, como uma época artificialóide e burocrática da qual todos morrem de vergonha.


Um comentário:

Bruno Fabrício Cruz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.